Black Mirror: Hino Nacional (The National Anthem): nós, os porcos

AVISO: esse texto contém spoilers do episódio 1 da primeira temporada de Black Mirror, cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Definir o que é arte é algo que os estudiosos – tanto os de verdade quanto os de Facebook – têm buscado fazer desde tempos imemoriais. A partir daí, definir o que são obras de arte se torna um desafio inalcançável, e cada um acaba criando seus próprios parâmetros. Para os fins desse texto, uma “obra de arte” é tudo aquilo que desperta sensações: não importa se positivas ou negativas. “The National Anthem”, o primeiro episódio de Black Mirror, se encaixa nessa definição e, além disso, traz uma obra de arte ainda maior dentro de si – uma que nos lembra o quão podre nossa sociedade é.

the national anthem

Ao fim do episódio, descobrimos que todos os eventos que se sucederam foram articulados por um artista, e foram denominados por um crítico como “a primeira grande obra de arte do século XXI”. Seguindo nossa lógica anterior, quais são as emoções que ver um primeiro-ministro de uma grande potência transar com um porco causam (além da óbvia zoofilia, claro)? Qual foi a obra máxima de Carlton Bloom, a qual ele concluiu, matando-se em seguida?

À primeira vista, a crítica óbvia que o ato de terrorismo de Bloom traz é em relação à classe política e o poder. O simbolismo do porco – que inclusive é levantado durante o episódio – vem de milênios: muitas culturas ancestrais consideravam o porco um animal sujo, especialmente em meio ao povo judaico. Por serem considerados imundos, os judeus não comem carne de porco, e a relação entre o animal e a imundície foi perpetuada através do texto bíblico, quando Jesus expulsa uma legião de demônios de um homem e faz com que eles invadam uma vara de porcos. Quando os demônios possuem os porcos, os animais imediatamente se lançam de um precipício. Além de desperdiçar muito bacon, isso fez com que porcos fossem promovidos (?) de animais impuros para praticamente bichos satânicos – daí a expressão “espírito de porco”.

the national anthem

Saltamos bons 19 séculos, e durante boa parte da década de 60 e 70, nas revoluções e movimentos sociais ocorridos principalmente nos Estados Unidos (como visto em “When We Rise“), tornou-se muito comum chamar os policiais, políticos e outros representantes do poder vigente de “porcos” para rebaixá-los. O termo foi revivido nos protestos contra as guerras que o ocidente empreendia contra o oriente médio e, embora nunca tenha caído de fato em desuso, sua repetição intensificou-se com os protestos contra o mercado financeiro e o capital especulativo, movimento Occupy Wall Street afora.

Ao somarmos esses elementos, fazer com que o líder de uma nação poderosa como a Inglaterra faça sexo com um porco ao vivo para o mundo todo iguala o homem ao animal com o qual ele se relaciona, e, simbolicamente, prova que todo poder em nossa sociedade pertence à imundície e aos demônios.

the national anthem

Ainda assim, esse não é o principal ponto de “The National Anthem”. O principal ponto do episódio é – literalmente – todo o mundo.

A opinião pública, no início do episódio, se posiciona gravemente contra o primeiro-ministro praticar o ato com a pobre porquinha, mas não tarda para que a maré mude até que a absoluta maioria da população veja a bestialidade como a única forma de salvar a princesa, sequestrada por Carlton Bloom. Como se a mera chance de transar ao vivo com um porco não fosse suficiente para que o primeiro-ministro Michael Callow se desespere, agora ele tem todo um país torcendo para que ele de fato o faça.

Enquanto “The National Anthem” se desenvolve e percebemos que é isso mesmo que vai acontecer, vemos a ansiedade das pessoas se desenrolando enquanto elas se juntam em bares e param seus trabalhos para assistir ao horror que se dará em seguida. Pedidos oficiais, recomendações psiquiátricas e nem mesmo um som para causar náusea conseguem impedir que os bons cidadãos ingleses (e do mundo) vejam a cena que acontece em seguida. E todos assistem, por mais de uma hora, o primeiro-ministro sofrendo, chorando e suando como um porco – e com um porco.

the national anthem

Descobrimos, ao fim do episódio, que a audiência bateu mais de um bilhão de pessoas, e mesmo quando a expectativa transformou-se em choque, o choque em nojo e este em pena, todos continuaram com suas tevês ligadas. O show só estava passando porque Bloom sabia que as pessoas ligariam a televisão para ver seu plano dar certo. Para que tudo o que Bloom articulou desse certo, era necessário que a humanidade fosse podre e imunda o suficiente para querer contemplar uma das maiores humilhações que a sociedade já presenciou.

Bloom sabia que, em última análise, somos todos porcos.

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De toda a tensão e horrores que “The National Anthem” suscita, a pior é a resposta para a pergunta: “eu assistiria esta transmissão caso ela passasse hoje?”, dentro de suas variações – caso fosse um político amado, odiado ou respeitado. A pior percepção é perceber que, mesmo dentre animais imundos e poderosos que se deitam com bestas, nós somos os porcos, nos chafurdando na nossa própria podridão.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.