Black Mirror: Cale a Boca e Dance (Shut Up and Dance): nós, os vulneráveis

AVISO: esse texto contém spoilers do terceiro episódio da terceira temporada de Black Mirror (“Shut Up and Dance”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Foi em 2015 que um grupo de hackers que se autodenominou “The Impact Team” (“O Time do Impacto”, em tradução livre) invadiu o site Ashley Madison e roubou sua lista de usuários. O site era – e ainda é – conhecido como “o maior site de traição do mundo”, com seu slogan “a vida é curta, então tenha um caso”, e tinha como proposta óbvia exatamente isso: se você quer ter um ou uma amante, procure aqui. O Impact Team conseguiu acesso a milhões de nomes, emails e contatos de usuários no banco de dados do site e emitiu um ultimato: ou o Ashley Madison fechava ou eles divulgariam a lista – o que, efetivamente, dava no mesmo. O que aconteceu a partir daí é história. O que fica é: eles tinham o direito de fazer isso?

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Em “Shut Up and Dance”, um adolescente chamado Kenny acaba se fazendo a mesma pergunta. Hackers invadiram a webcam do seu computador e o pegaram se masturbando. Não fosse isso o suficiente, eles ordenam que Kenny espere ser “ativado” para cumprir as ordens que o grupo der; se o rapaz não obedecer, seu vídeo vai para a internet. As ações começam pequenas, com a demanda de que ele abandone o seu trabalho e pegue um bolo, e culminam com ele executando um assalto a um banco com o adúltero Hector (Jerome Flynn, de “Game of Thrones“).

Eles obedecem a todas as ordens dos hackers, ato a ato, o que não impede que, ao final, os hackers ainda exponham suas culpas: a esposa de Hector recebe as provas da infidelidade de seu marido, e o vídeo de Kenny se masturbando vai para a internet – junto ao fato de que a pornografia que Kenny estava consumindo era de conteúdo pedófilo. É assim que os hackers justiceiros chamam para si a responsabilidade por fora de um sistema legal, trazendo para si o poder de juiz, júri e, de forma efetiva, carrasco.

Não é muito diferente do que vimos em outro episódio de Black Mirror, o excelente “White Bear“, embora lá o Parque Urso Branco estivesse dentro das limitações legais. Aqui, o hacktivismo tem contornos ao mesmo tempo mais etéreos – visto que nunca sabemos quem ou qual grupo está controlando as chantagens e as situações – enquanto a ameaça se torna mais individualizada. Se um crime terrível condena para um loop eterno a protagonista de “White Bear”, aqui todos parecem efetivamente ameaçados e sob o controle dos hackers.

“Shut Up and Dance” tenta criar exatamente essa atmosfera: todos e qualquer um pode ser o próximo na lista, pego e posto à ação com simples toques de celular. Embora o caso da pornografia infantil de Kenny seja um extremo criminoso (também usado de forma bem semelhante em “White Bear”, diga-se de passagem), o grave erro de Hector é algo mais tristemente recorrente na sociedade. Se em Kenny há uma extrapolação para entender porque o personagem vai às últimas consequências, Hector é a personagem que torna o medo real e palpável para nós – e, inevitavelmente, nos leva à pergunta: qual segredo que eu possuo tem a capacidade de me dobrar às vontades de quem o descobrir?

Digamos que seja um erro. Independente da gravidade dele, ele é sério o suficiente para ser a primeira coisa que lhe vem à mente nessas circunstâncias. É um erro que teve ou não suas consequências; ainda assim, estaria na mão de terceiros o poder de deliberar sobre o seu futuro com base na exposição desta informação. Embora nossos instintos gritem e nos digam ou que não temos nenhum segredo que nos envergonhe – o que dificilmente é verdade – ou que seria injusta tal exposição, “Shut Up and Dance” também nos põe em contato com a mulher que foi traída, em seus olhos, sua expressão e sua tristeza absoluta diante da verdade que finalmente lhe foi entregue. Atrás dos botões, controlando o poder daquela revelação, guardaríamos para nós ou avisaríamos da traição? O quanto disso de fato é justiça, e não alguma triste tentativa de redimir nossos próprios erros através do expurgo público de nossos semelhantes?

E quanto ao crime de Kenny? Onde traçamos a linha e aceitamos nos omitir, e o quanto isso nos torna cúmplices?

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“Shut Up and Dance” nos mostra que não estamos vulneráveis apenas em nossos segredos que buscamos esquecer, mas também na nossa tentativa de alçar ao poder de julgamento – isso abrangendo de Kenny à Ashley Madison, e tudo abarcado no meio. Nossas opiniões são enviesadas e nossos critérios são constantemente obscurecidos por inclinações pessoais que se distanciam muito da imparcialidade que tanto demandamos do sistema. “Shut Up and Dance” nos prova que, do carrasco ao criminoso, do juiz ao juri, provavelmente não seríamos aceitos em nossos próprios parâmetros de justiça. Se achamos que é só o sistema que está moralmente falido, falta gastarmos um pouco mais de tempo pondo nossos corações na balança.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.