Análise | Black Mirror – San Junipero: nós, os fugitivos

AVISO: essa resenha contém spoilers do quarto episódio da terceira temporada de Black Mirror (“San Junipero”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Há várias formas de fuga que são bem comuns à existência humana. Muitos fogem na comida, por exemplo. Outros preferiram as drogas, outros o sexo, outros só veem filmes e séries e escrevem sobre eles para outros fugitivos encontrarem identificação mais real num mar de visões genéricas. É compreensível; a experiência de existir nos confronta com questionamentos sobre seus comos, porquês, para-quês, e os e-depois que sempre parecem estar um passo além do que nossas pernas conseguem alcançar. Se a paz reside em aceitar que há coisas que não entendemos, ao fugir encontramos alívio para o incômodo de não saber. Nesse ponto, “San Junipero” conversa conosco ao nos mostrar que poucas coisas nos unem mais do que o nosso apreço pela fuga.

Yorkie (Mackenzie Davies, “Halt and Catch Fire”) está completamente paralisada em uma cama há décadas, desde que se revelou lésbica para seus pais e sofreu um grave acidente ao sair desesperada de casa após a péssima reação deles. Para Yorkie, no entanto, San Junipero não é uma forma de ser quem ela é, mas um jeito de ganhar uma sobrevida dentro dos limites impostos por seus pais; suas roupas, gostos e comportamento bebem da ala mais tradicional dos anos 80, que até afirmava que garotas só querem se divertir, mas se refreavam em se reconhecerem como uma virgem tocada pela primeira vez. Desta forma, mesmo em uma realidade virtual dentro da qual Yorkie é capaz de tudo, as amarras obrigadas a ela ainda a mantinham sendo menos do que ela gostaria de ser – até ela encontrar Kelly (Gugu Mbatha-Raw, “The Cloverfield Paradox“).

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Esta por sua vez, extravasa os seus anseios reprimidos em prol de um longo casamento feliz, o qual terminou com o falecimento de seu marido, Richard, e sua subsequente recusa de ser posto em San Junipero, preferindo seguir ao encontro da filha morta do casal no pós-vida. Magoada por Richard tê-la deixado, apesar de compreendê-lo, Kelly mergulhou na direção oposta de qualquer coisa que pudesse se estabelecer como uma relação limitadora, buscando usufruir do que havia subtraído de si mesma em prol de uma vida a dois – até conhecer Yorkie.

Desta forma, San Junipero não era a fuga para Yorkie e Kelly. Elas o eram para si mesmas, mutuamente.

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Apesar do episódio ter sido inspirado a Charlie Brooker pelo uso de nostalgia para tratar e cuidar de idosos, Yorkie não conseguia de fato escapar em San Junipero, mesmo dentre as canções e filmes da sua juventude, continuando presa pelas correntes das expectativas que outros tinham dela – de que ela se casasse com um jovem que cuidasse bem dela e que formasse uma família a partir daí. Kelly é sua fuga ao permitir que ela abraçasse sua orientação sexual, a qual não só foi reprimida, mas cuja a repressão violenta por parte da sua família a colocou entrevada numa cama até o fim de sua vida. Kelly traz à Yorkie a possibilidade de se aceitar e lidar de forma madura com os desdobramentos de suas decisões.

Na contramão deste raciocínio, a própria Kelly se achava paradoxalmente presa em sua liberdade, abafando o impulso inicial de se deixar afeiçoar-se a Yorkie por ter feito um acordo consigo mesma de que não se atrelaria a mais ninguém. Dentro de uma dinâmica de relacionamento afetivo saudável, é inevitável que ambas as partes abram mão de certas possibilidades em prol do outro – como, geralmente, a opção de fazer sexo com outras pessoas, por exemplo. Embora não haja problema algum em se querer estar ou não em um relacionamento, Kelly deixou a amargura da perda de seu marido atar sua vontade, deixando-a presa ao passado mesmo dentro de sua recém-encontrada liberdade. Yorkie traz à Kelly a possibilidade de se arriscar mais uma vez – inclusive de se ferir novamente, talvez – e encontrar a liberdade de amar de novo.

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Esta dinâmica demonstra que, assim como Yorkie e Kelly, a fuga não se dá para San Junipero – uma simples plataforma -, mas para através dela alcançarmos alguém que possa nos servir de abrigo ante a nossa própria existência. Seja em The Sims, maratonando Black Mirror, supervalorizando de forma doentia elementos de cultura pop ou mesmo usando entorpecentes, as nossas fugas não se dão rumo à plataforma em si mesma, mas as possibilidades de conexão que ela proporciona – seja ela com outras pessoas reais que compartilham nossos gostos ou personagens fictícios com os quais nos identificamos. Nunca fugimos para algo. Sempre fugimos para alguém.

Existir não é uma tarefa simples; os questionamentos oriundos dela, ainda menos. Assim, o ser humano se coloca sempre em estado de fuga, correndo através das telas pretas dos aparelhos eletrônicos não rumo à tecnologia, mas almejando encontrar uma comunidade que o aceite ou uma pessoa nos braços da qual ele possa se abrigar. Desta forma, “San Junipero” nos aponta que, apesar da má fama que escapes possam ter, não há nada mais humano do que ser um fugitivo.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.