Black Mirror: Teste de Jogo (Playtest): nós, os inconsequentes

AVISO: esse texto contém spoilers do segundo episódio da terceira temporada de Black Mirror (“Playtest”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Um dos esportes radicais mais perigosos do mundo, o BASE jump é famoso pelo alto índice de mortalidade dentre aqueles que o praticam: com uma taxa de letalidade de um em cada sessenta praticantes, seria racionalmente incompreensível conceber o motivo pelo qual seres humanos em plena capacidade mental continuariam a fazer isso mesmo com estes números. “Playtest” de Black Mirror, contudo, demonstra o motivo pelo qual nos expomos repetidas vezes à uma experiência claramente estúpida: pelo prazer inconsequente da emoção bruta.

playtest

Quando Cooper (Wyatt Russell, “Anjos da Lei 2”) entra na casa mal-assombrada por si próprio, ele já sabia o poder da tecnologia que ele usava. Ele sabia a capacidade que aquele chip tinha de penetrar em sua mente e tornar seus maiores horrores realidades diante de seus olhos. Ele havia feito isso antes com um jogo de acertar a marmota e, se aquela experiência foi simples demais para de fato deixar uma marca, Cooper teve um começo de experiência seguinte tão traumática quando viu e sentiu seus demônios interiores tomarem forma diante dele e andarem sobre sua pele. Ali, já era evidente que o jogo que o venderam nem de longe era inofensivo como queriam que ele cresse.

Isso se comunica diretamente com a forma que consumimos material de horror. Embora muitos aconselhem e recomendem moderação e sabedoria no uso do terror para entretenimento – considerando seu potencial para criar traumas e marcas emocionais, principalmente em crianças -, nós, como indivíduos e como sociedade, continuamos a empurrar os limites do gênero, buscando novas formas de nos aterrorizarmos e sentirmos a adrenalina do pânico dentro das paredes seguras da nossa casa estranhamente silenciosa ou de nosso quarto escuro.

Imagem relacionada

A empresa fictícia de “Playtest”, SaitoGemu, desenvolve sua tecnologia exatamente com o propósito de nos levar além na nossa exploração do horror, quebrando barreiras cognitivas inerentes ao não-real para uma experiência mais bruta – por mais que jogar um “Dead Space” ou assistir “A Bruxa” possa nos amedrontar, nosso cérebro compreende que, em última análise, aquilo ainda é falso, não podendo nos causar nenhum mal real. Mas e se essa barreira for atravessada?

Toda vez que um novo filme de terror propõe uma novidade em experiência, é isso que se almeja: será agora que o horror vai ser redefinido? Acharam que o horror psicológico dos anos 60 era a fronteira final (como em “O Bebê de Rosemary“), bem como “O Massacre da Serra Elétrica” seria a experiência definitiva de horror com seu realismo terrível. Os slashers dos anos 80, o horror antropológico dos anos 90, o renascimento do torture porn no início dos anos 2000 e do 3D no fim da mesma década – todos eles foram acreditados serem o “novo limite máximo” que o ser humano suportaria na experiência de se sentir aterrorizado.

E ainda assim, continuamos forçando essas fronteiras. Mesmo desconhecendo a capacidade que a real quebra dessa fronteira poderia causar em nós – os traumas, tanto físicos quanto psicológicos -, continuamos tentando ver o quanto podemos acontecer. Mas o que acontece quando descobrirmos?

Cooper viveu um pesadelo sem fim numa fração infinitesimal de segundo porque sua mente achou esse limite e o atravessou. O que achou do outro lado era incompreensível. Ao fim de “Playtest” – um episódio assustador, mas não aterrorizante de Black Mirror -, podemos refletir não sobre nossa capacidade de transcender limites como espécie – porque de fato podemos -, mas onde fica a linha entre o poder e o dever. De uma raça que pratica um esporte onde a cada 60 tentativas, uma acaba em morte, é possível esperar que muitas barreiras sigam a serem quebradas, pelo simples prazer da superação, custe isso o que custar.

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.