Black Mirror: Queda Livre (Nosedive): nós, os populares

AVISO: esse texto contém spoilers do primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror (“Nosedive”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Muitos filmes dos anos 80 traziam uma realidade estilizada para nós, jovens dos anos 90 e 2000, nascidos em terras tupiniquins: os estereótipos dos jovens em seus grupos. Dentre meninas deslocadas, CDFs/nerds (dependendo de quando você nasceu) e casos perdidos, todos nós assistíamos os filmes, séries e derivados com um coração que latia simultaneamente por sermos os populares sem perdermos nossa individualidade; era aquela dança de querermos ser eles, mas, no nosso ressentimento por não sermos, nos consolarmos com o mantra de que “sou diferente porque sou especial”. Uma fase pertencente especialmente à adolescência, a necessidade exagerada de ser aceito tem perdurado muito além do normal uma dentro da cultura digital do século XXI – e é sobre isso que “Nosedive” fala.

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Todo mundo precisa ser amado, e está tudo bem: isso é normal. O ser humano é um ser social desde sua concepção, e nos relacionarmos é o que fazemos por excelência. Com o advento de “progressos” distintos, contudo, principalmente aqueles suscitados pelo capitalismo, nossas vidas estão cada vez mais inseridas em uma corrida de rato interminável – cada vez mais rápida e cada vez mais infrutífera. Nossos relacionamentos, antes um punhado que eram desenvolvidos exaustivamente ao longo de décadas, tendem a se multiplicar em quantidade na mesma proporção que se tornam rasos e insuficientes para nossos vazios de sermos queridos.

Mas não se preocupem: para isso foi inventado o Facebook.

Não só ele; a rede social de Mark Zuckerberg, bem como o Instagram e outras que são baseadas no like se diferem daquelas organizações digitais do passado por conterem uma interação mais do que digital, mas plástica. Se no Orkut a dinâmica se baseava na resposta aos scraps e aos posts, sendo necessária uma conversa para que a rede social funcionasse, você pode passar dias no Facebook e no Instagram sem se expor de forma alguma, apenas curtindo e colocando representações vazias de emoções diversas – como “amei” e “grr” – em postagens que aparecem na sua página.

Este cenário é bem mais curioso se pensarmos por este lado: o Orkut poderia acusar o Facebook de ser superficial demais.

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Isso não é culpa da rede social; como qualquer ferramenta, ela pode ser usada com bons ou maus propósitos, e qualquer afirmativa que difira disso é uma tentativa de nos isentarmos de responsabilidade por nosso comportamento. O Orkut não morreu porque sua data de validade expirou, e sim porque as pessoas preferiram a forma que o Facebook propunha que nossas relações se estabelecessem. Escolhemos ser mais superficiais.

É claro que isso não se dá de maneira racional para grande parte das pessoas; é um misto de movimento de manada com uma resposta instintiva à mudança. O preocupante é pensar que provavelmente os seres estranhos de “Nosedive”, que se dão notas e avaliações em todas as interações na vida, também não notaram a transição para esta nova rede social bizarra da qual fazem parte. Em algum momento eles foram de uma rede de likes em posts para dar notas de 1 a 5 para as pessoas e, por mais que não tenhamos o histórico deste processo, ele certamente se deu de forma natural. É uma demanda necessária para que ele funcione.

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Olhando sob este ângulo, “Nosedive” não é tanto um “futuro distópico” quanto um retrato bem específico do presente. Nossa sociedade já é arranjada sob a dinâmica apresentada pela série: empregadores já olham as postagens das redes sociais para avaliar se contratarão ou não uma pessoa; chamamos pessoas específicas para eventos porque sabemos que ela nos dará uma visibilidade diferente no núcleo no qual queremos nos destacar; e todos nós já posamos para uma foto da qual preferíamos não fazer parte – mas ela ficou tão boa no Instagram, não foi? Nada como um bom filtro para mascarar a realidade insossa que vivemos.

Para “Nosedive”, só nos falta o seu aplicativo.

No decorrer do episódio, vemos que esta prisão de realidade plástica e superficial não permite reações intensas naturais, como raiva, tristeza e revolta – sabe, como humanos costumam ter -, punindo estas reações com o exílio social dentro deste “sistema de castas digital” (que, inclusive, é uma expressão ridícula de se escrever, tanto pelo sentido estranho que ela propõe quanto pelo fato de ser um termo com correspondência real). Sendo as escolhas, aparentemente, entre sermos autênticos, correndo o risco de sermos rejeitados, e nos enquadrarmos numa adequação falsa, a opção pelo segundo parece ser natural. Quando uma pesquisa aponta que a sensação de receber um like atinge a área de prazer, através da qual aproveitamos o sexo, comidas que gostamos e outras emoções primordiais, o porquê se torna claro.

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Com as cartas na mesa, vemos que não somos nada mais do que éramos quando adolescentes: tão desesperados por aprovação, por se sentir parte de algo, por ser querido, que ajustamos nossas interações – tanto as digitais quanto as físicas – da melhor forma possível para máximo desempenho; foi-se o tempo em que o oposto de “digital” era “real”, mas o mundo palpável ainda é mais difícil de moldarmos às nossas vontades. Daí nos escondermos atrás de celulares o melhor possível, construindo uma vida irreal, buscando sermos os populares sob medida para o século XXI.

A realidade é que não perdemos aquele contraste adolescente que nasceu do choque entre a necessidade de uma identidade individual versus a necessidade de pertencimento; somos tão patéticos nesse sentido hoje quanto éramos aos 15, 13, 10 anos de idade. O ponto de virada se deu ao notarmos que não precisamos agradar todos os colegas da escola: podemos fazer um bom meme, uma postagem socialmente engajada, uma foto com bom ângulo ou uma boa resenha de uma série para apelar para um nicho específico e, assim, beber desse carinho plástico que se contenta em dois cliques para dizer que “amou” – talvez o verbo mais banalizado do nosso idioma.

Em outras palavras, somos tão ridiculamente inseguros e carentes de aprovação quanto éramos quando mais novos. A única diferença é que, hoje, sabemos nos vender melhor para o nosso público-alvo – aquele grupo abstrato que, em sua rede social, responde por “Amigos”.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.