Black Mirror: Quinze Milhões de Méritos (Fifteen Million Merits): nós, os plásticos

AVISO: esse texto contém spoilers do episódio 2 da primeira temporada de Black Mirror (“Fifteen Million Merits”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

O ano é 1914 e Henry Ford muda o mundo. Com uma lógica de produção em massa, Ford pessoalmente demoliu e reconstruiu o consumo na sociedade de sua época, e moldou a maneira como o capitalismo atenderia e criaria demanda pelo mundo afora. Para produzir mais e servir mais clientela, abre-se mão do artesanato, e da produção de bens de maneira personalizada, e talvez até artística, por uma cadeia de produção, que, para ter velocidade, abre mão da personalidade. No segundo episódio de Black Mirror, “Fifteen Million Merits”, esse raciocínio seguiu seu fluxo normal, pelo qual estamos sendo atravessados mesmo em nossos dias, e deu o próximo passo em seu (dito) progresso.

fifteen million merits

O “progresso”, nesse caso, tem uma necessidade bem clara: se um artesão fabricava três copos por hora – cada um particular, visto que a repetição em trabalho manual nunca é realmente idêntica – e faturava 30 dinheiros, encontramos uma máquina que produz 30 copos exatamente iguais na mesma uma hora, faturando pelo menos dez vezes mais. Esse método elimina a margem de erros, também eliminando a capacidade de singularidade – e alguns diriam até que neutraliza a criatividade, visto que muito dos nossos reais avanços como espécie deram-se por falhas em planos e processos.

Em suma: ganhamos em alcance e quantidade, mas perdemos em autenticidade e individualidade.

fifteen million merits

Isso não seria essencialmente um problema caso este método fosse restrito ao novo Ford T.  O caso é que, como tudo que se projeta em escala global, o que era uma lógica atrelada ao processo produtivo se entranhou no pensamento da sociedade, de forma que o raciocínio fordista penetrou mesmo nossas relações e produções culturais. Tome o Big Brother Brasil por exemplo: Kleber Bambam não ganhou a primeira edição do reality por ser um grande articulador ou por sua genialidade em oratória: ele venceu simplesmente por ser autêntico – o que as pessoas mais anseiam em ver em um “show de realidade” é o mais próximo possível do real.

O problema é criado quando um modelo funciona e gera “lucro” – seja ele financeiro, em relevância ou em uma combinação estranha dos dois – e passa imediatamente a ser copiado por todos e expandido e exportado e trocado e vendido e o que inicialmente era somente o jeito de ser de um participante de reality show vira uma marca, uma camiseta, um bordão e uma ilustração do que era real. Subitamente ele se torna uma caricatura de si mesmo.

Não há nada que o capitalismo não possa processar e transformar em objeto de consumo.

fifteen million merits

É exatamente, inclusive, o que eu faço nesse texto. Eu fui afetado por “Fifteen Million Merits”; ele me causou uma reação real de tristeza, incômodo e desespero; me deu vontade de viver em uma outra sociedade, com outra realidade e história. Então eu vim escrever esse texto, que, dentro de suas limitações, denuncia a lógica de comercialização abstrata, em que tudo vira consumo… Para que vocês possam consumir este texto. Eu programei um SEO para que as ferramentas de busca possam encontrar este texto e consumi-lo.

Isso, teoricamente, faria de mim um dissidente – o que, para a lógica capitalista, é um doce maravilhoso. O que o capitalismo mais gosta de comer no café da manhã é um dissidente: rebeldia passa autenticidade, e todos nós estamos desesperados para comprar um pouco de autenticidade para as nossas vidas plásticas, feitas em escala de produção. Rebeldia vende.

fifteen million merits

É o que o protagonista Bing tenta denuncinar no ponto alto de “Fifteen Million Merits”. Com um caco de vidro em seu pescoço, Bing ameaça suicidar-se caso não escutem tudo o que ele tem a dizer. Sufocado pela plasticidade de seu mundo e afogado pela perda da única coisa real que teve em muito tempo, Bing treme enquanto encara uma bancada de jurados e uma multidão de avatares digitais, que representam a audiência em seus cubículos, enquanto explode em uma confissão intensa.

Estamos tão enlouquecidos de desespero que não conhecemos nada melhor. Só conhecemos ração falsa e comprar merdas. É assim que falamos uns com os outros; nós nos expressamos comprando merdas. Eu tenho um sonho? O pico dos nossos sonhos é comprar um chapéu novo para o nosso avatar – um chapéu que não existe. Ele nem mesmo está lá, nós compramos coisas que nem existem. Nos mostrem algo real e gratuito e lindo; vocês não conseguiriam. Isso nos quebraria, estamos entorpecidos demais para isso, e nossas mentes engasgariam. Há um limite de quantas maravilhas conseguimos processar, e é por isso que quando vocês encontram uma maravilha vocês a dissolvem em pequenas porções, para então aumentá-la e empacotá-la e passá-la por dez mil filtros, até que seja nada mais que uma série de luzes sem significado, enquanto pedalamos entra dia e sai dia… Indo aonde? Dando energia para o quê? Todas as pequenas celas com pequenas telas e celas maiores com telas maiores e fodam-se vocês. “Fodam-se” é o resumo de tudo.

A percepção final de “Fifteen Million Merits” nos vem quando contemplamos Bing transformando sua rebeldia em um produto, para que possa ter uma vida um pouco além da mediocridade: qualquer coisa que pareça minimamente criativa, rebelde, inovadora ou contestadora será aproveitada em sua essência por uma fração de segundos antes de ser picotada, aguada, passada por engenharia reversa, reproduzida e vendida em pequenos sachês na máquina de felicidade mais próxima da sua casa.

fifteen million merits

Em última análise, nada é autêntico – e o que consegue ser nunca o é por tempo suficiente para que se torne relevante. Obrigado, Ford.

 

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.