Black Mirror: Volto Logo (Be Right Back): nós, os apegados

AVISO: esse texto contém spoilers do episódio 1 da segunda temporada de Black Mirror (“Be Right Back”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Entropia. Faz bastante tempo, há quase dois anos, que eu falei aqui sobre a dificuldade que a cultura ocidental tem de aceitar os fins. Seja em franquias cinematográficas, as despedidas de bandas amadas ou ao virar da última página de um excelente livro, é extremamente complicado para nós aceitar que algo com o qual nos afeiçoávamos somente deixou de ser – e é disso que trata a entropia, a certeza do fim que é inerente à existência. O primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, chamado Be Right Back, versa sobre essa nossa incapacidade de nos despedirmos de o quê – ou quem – nós amamos.

Martha (Hayley Atwell), por exemplo, não consegue aceitar que seu namorado, Ash (Domhnall Gleeson), morreu. Contra sua vontade, Martha entra em contato com uma tecnologia que imita as respostas e reações de seu defunto amante através das informações disponíveis na internet – posteriormente sintetizando a voz de Ash através de amostras de vídeos, e finalmente ganhando corpo na forma de algo semelhante a um androide. Trazer Ash de volta à vida, no entanto, não significa trazer vida para Ash, e é isso que Martha descobre ao ver que o androide não tem a capacidade de preenchê-la e surpreendê-la, apenas repetindo e mesclando as informações que lhe foram imputadas.

be right back

E é claro que ele não consegue; ele é, em última análise, um pedaço de tecnologia, com uma mente na nuvem que remixa pensamentos expressos por Ash em algum momento. Martha, ao forçar uma existência plástica à Ash mesmo depois da sua morte, impede que a vida tome seu rumo, como uma poça d’água contém a chuva: por mais pura que ela fosse ao cair, a água apodrece com o tempo pelo simples fato de estar contida.

O relacionamento de Martha e do novo-Ash degringola rapidamente pelo mesmo motivo: esta versão de seu amante não traz as memórias e experiências do ex-parceiro da moça, e tudo o que ele expressa são opiniões vazias, destituídas de histórico – mesmo de traumas. Quando ele olha para uma foto engraçada e somente aponta o quão divertida ela é, este novo-Ash ignora o dia difícil que está por trás daquela imagem, e Martha perde a sutileza e complexidade que via em seu namorado.

be right back

É a mesma reação que ela tem quando toca “How Deep is Your Love”, do Bee Gees, no carro; na noite anterior à sua morte, Ash surpreendera Martha ao revelar que ele gostava do grupo e da música, apesar de reconhecer que ela era brega. Posteriormente, no mesmo carro, o novo-Ash só aponta que ela é cafona. Martha se mostra frustrada, mas a responsabilidade é somente dela: sua incapacidade de aceitar a perda é a causa de agora ela ser incapaz de encontrar algo novo e nuanceado.

O mesmo acontece conosco recorrentemente; todas as vezes que negamos um fim, represamos aquelas águas, rejeitando a percepção de que, por mais que tentemos reciclar as memórias e as sensações, tudo aquilo não passa de ecos do que já vivemos. A água apodrece e, ao nos prendermos àquilo que não existe mais, perdemos a oportunidade de vivenciar experiências novas – e ainda nos frustramos quando o que é velho e inexistente não consegue atender às nossas necessidades.

be right back

Em “Be Right Back”, a reação de Martha ao perder o seu amor, embora extrapolada na série, é completamente compreensível, e suas consequências são reais para nós, mesmo que a causa seja ficcional. O episódio nos lembra que resistir aos fins só realça a inexistência daquilo que não está mais ali, e a nossa tendência de reter as águas só faz com que elas apodreçam mais rápido, sinalizando com mais força o propósito de tudo o que um dia já começou na Terra.

Entropia.

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.