Birdman – ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2015)

“As pessoas amam sangue. Elas amam ação. Não essa bosta de falatório filosófico.”

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Título: Birdman – ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

(“Birdman – or (the Unexpected Virtue of Ignorance“))

Diretor: Alejandro G. Iñárritu

Ano: 2015

Pipocas: 10/10 

“Popularidade é a prima vadia do prestígio”, diz o personagem de Edward Norton em um ponto do filme, e sumariza bem todo o debate que o filme traz em diversas frentes. Todos os contrastes – entre ator e celebridade; entre as gerações anteriores e a atual; entre o crítico e a arte – abordados no filme são perpassados pela temática da dicotomia presente entre prestígio e a mera celebridade na era do Twitter, e como isso pesa sobre aqueles que produzem a arte. E é na sua abordagem metalinguística desse contexto que “Birdman” é extremamente bem-sucedido.

O filme traz Riggan Thomson (Michael Keaton, o Batman), um ator que ficou marcado há 20 anos após ter feito três filmes de um super-heroi chamado Birdman e que agora quer voltar à boa forma com uma peça realmente significativa – que ele mesmo adaptou, dirige e estrela. Seu relacionamento com sua assistente/filha Sam (Emma Stone, a Gwen Stacy dos últimos dois “Homem-Aranha”), as idiossincrasias de uma estrela dos palcos (Edward Norton, ex-Hulk) e sua dinâmica com as atrizes que contracenam em seu tablado não facilitam este retorno – embora sua maior dificuldade seja lidar com seus devaneios frequentes, que incluem possuir poderes telecinéticos e ouvir a voz de seu antigo personagem fantasiado falando em seu ouvido.

O longa – que possui somente 16 cortes visíveis em toda a sua projeção – é fluido e claustrofóbico. A câmera é fixa quando está no palco, porém segue o estilo “handicam” (“câmera-na-mão”) quando os atores vão para o backstage, fazendo com que andemos junto a eles nos corredores, transitando de um personagem para outro de forma ininterrupta. O filme se passa quase todo no teatro onde a peça de Riggan estreará em alguns dias, e as transições de tempo dentro daquele espaço fechado fazem com que dia e noite se misturem em um único fluxo de ensaios e interações – interações essas sempre mergulhadas simultaneamente em uma superioridade latente e um complexo de inferioridade mal velado, que beiram o pedantismo, não fosse a metalinguagem ácida das falas.

O filme já fala sobre si desde sua escalação. O trio principal do filme teve papeis protagonistas em filmes de herois nas últimas décadas – Emma Stone sendo a mais recente dos três. A partir daí, não é muito difícil notar os paralelos entre Riggan Thomas e Michael Keaton: ambos deixaram de ser Birdman/Batman há 20 anos, ambos ficaram marcados pelo personagem e tiveram dificuldade de alcançar o grande público depois disso… Mesmo a fonte usada no título “Birdman 3” no pôster do camarim de Thomas é a mesma fonte dos filmes do Batman da década de 1990. O roteiro do filme aprofunda essa autoanálise crítica todo o tempo, fazendo com que personagens femininas digam que não têm autoestima porque são atrizes, outros dizendo que não precisam de roteiro porque já são atores excelentes, e ainda explorando um tempo para embater as personificações da estrela de cinema e da crítica – de forma bem literal, com dedos na cara e acusações sobre a frivolidade e o desprezo com que um trata o outro.

Todas essas trocas e movimentações são marcadas por uma bateria constante – e por vezes literal, visto que em sua mente Riggan Thomas tem total controle sobre a “trilha sonora” de sua vida – que dialoga com outro filme que concorre ao Oscar, Whiplash. A batida ansiosa, pontuada, acrescenta ao sentimento claustrofóbico gerado pelo ambiente (uma das trilhas de bateria, inclusive, se chama “Claustrophobia”), e nos insere ainda mais no contexto do filme. As atuações são muito boas, mas da forma que estamos praticamente lá, atuando junto a eles, mesmo que Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton, Zach Galifianakis (sendo pela primeira vez o personagem razoável e equilibrado, em uma ótima performance) e os demais não fossem excelentes em suas funções, o filme ainda seria bom pelo seu conteúdo.

Dentre as diversas camadas de interpretação de “Birdman”, salta aos olhos a que trata do público de hoje em dia, e sobre como o interesse deste é muito maior em filmes da escola Valesquiana de cinema (tiro-porrada-e-bomba) do que filmes que tenham diálogos e realmente explorem seus personagens. Embora essa tendência não seja de hoje, os longa-metragens que crescem proporcionalmente em beleza e ausência de conteúdo – se tornando meramente um produto de consumo de uso imediato – estão em voga de forma inequívoca nessa era dos efeitos especiais

“Birdman” é, antes de tudo, um experiência bem-sucedida. Enquanto suas cenas ambíguas fazem o longa ganhar camadas de interpretação, sua metalinguagem afiada evita que o filme se torne pedante. Com uma embalagem inovadora e conteúdo instigante, “Birdman” consegue voar bem acima das nossas expectativas, mantendo o encantamento da indústria do entretenimento apesar de nos tirar a virtude da ignorância sobre seu funcionamento.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.