Comentário | Belas Maldições (1990) – velhas tradições, outras conclusões

Tudo o que é real é finito… exceto, é claro, o Universo. Mas a infinidade do Universo só é real porque nós não sabemos onde ele começa e onde termina, e essa ignorância permite que a realidade tenha um toque de fantasia. Se tomarmos, por exemplo, um ponto de vista microscópico da realidade, veremos a humanidade. E sendo a humanidade real, é empiricamente lógico que nós nasçamos e morramos assim como todo o resto da realidade. Nascer é relativamente simples e comum, afinal, já aconteceu com todos os que vivem, mas o fim sempre desperta a curiosidade. Apocalipse, Ragnarok, expansão solar, singularidades. Fé e razão são as belas maldições que guiam as vidas dos seres humanos a partir do questionamento da realidade.

belas maldições

O que Niel Gaiman faz em “Belas Maldições” é aplicar um pouco de razão à fé, o que é contraditório, mas funciona muito bem porque, se você parar para pensar, se os seres humanos não fossem racionais e não buscassem padrões, não existiriam as religiões. Por outro lado, se as religiões fossem inteiramente racionais, elas não seriam realmente religiões. Mas este texto não é sobre religiões, nem sobre ciência, nem sobre a ciência presente nas religiões, é sobre as “Belas Maldições” de Niel Gaiman. Se você não leu o livro, tudo bem. Até o fim deste texto você será convencido(a) a viver essa experiência. Ou não.

“Belas Maldições” é uma história sobre o fim… o fim bíblico, especificamente. O anticristo surgirá e os céus ficarão vermelhos como sangue. Animais mortos, poluição, fome, guerra, morte, monges tibetanos escavando buracos sob Lower Tadfield e outros males que geralmente definem o conceito capitalista de progresso.

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É em Lower Tadfield, uma cidadezinha esquecida no interior esquecido de uma parte esquecida da Inglaterra que a história se passa. Aziraphale e Crowley são, respectivamente, um anjo e um demônio que foram incumbidos de reparar o filho do tinhoso, que seria o grande centroavante a dar o pontapé inicial no Apocalipse, que marca o início do Armagedom, que é o combate épico entre o poleiro e o porão e que, por sua vez, decidirá o futuro do mundo.

A problemática da história acontece quando os dois funcionários etéreos descobrem um pequeno equívoco ocorrido na noite em que o descendente do unha encravada nasceu. Esse é um dos meus momentos favoritos do livro, quando somos apresentados à Ordem Faladeira de Santa Beryl e descobrimos que as seitas religiosas não são formadas apenas por pessoas encapuzadas fazendo coisas que pessoas encapuzadas normalmente fazem em filmes de pessoas encapuzadas. Não que a Ordem Faladeira de Santa Beryl não faça essas coisas, só que ela não se limita a isso. A Ordem também faz coisas que pessoas simplesmente encapuzadas não podem fazer porque não têm os contatos certos. De fato, fazer parte de uma seita religiosa deve ser difícil, principalmente considerando que as seitas que não são sérias são as que mais se levam a sério.

Seitas religiosas devem revelar muitos comediantes de stand up.

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Mas o resultado de toda essa confusão de natalidade foi Adam Young, o rebento do carrancudo. Adam cresceu e se tornou exatamente o que se esperava do filho do quina de mesa: um garoto comum. Mais ou menos. Não posso me prolongar para não dar spoiler, mas é importante dizer que tudo gira em torno das belas e precisas profecias de Agnes Nutter, uma bruxa. A partir das profecias de Agnes, a história se desenrola de maneiras peculiares. Anathema Device, Newton Pulsifer, Shadwell, Madame Tracy, os Johnsons, os Eles e, é claro, os inefáveis cavaleiros do Apocalipse são alguns personagens que contestam, afirmam e embaralham o entendimento das visões da bruxa.

Considerando que “Belas Maldições” é uma história de profecias, gostaria de fazer uma reflexão realmente espetacular e inédita (exceto no próprio livro em questão, em algumas séries, filmes, revistas e toda a sorte de obras famosas por tratarem exatamente do mesmo tema)! Lá vai.

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Profecias são futuros possíveis contados de um jeito minuciosamente horoscópico por alguém possuidor de dons de clarevidência, ou uma pessoa realmente desocupada. A questão é que se as pessoas acreditam em profecias, as vidas delas se moldarão àquelas histórias, pois o primeiro impulso será sempre validar o que “está escrito”. Mas se está escrito, qual é o sentido de refletir sobre isso? E se existe sentido nessa reflexão, as belas maldições da realidade humana, ao invés de fé e razão, seriam o quê senão decisões ilógicas travestidas de pensamentos concretos?

 


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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.