Beasts of no Nation (2015)

“Mãe, posso falar com você, agora que Deus não está mais escutando.”

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Título: Beasts of no Nation

Ano: 2015

Diretor: Cary Fukunaga

Pipocas: 9/10

Quando eu fiquei sabendo deste filme, sabia que começaria este texto falando sobre a iniciativa da Netflix ao lançar seu primeiro filme original já com nomes de peso na produção e elenco, batendo de frente com as grandes redes de cinema. Já decidido, sentei para ver o filme que lançou hoje, “Beasts of no Nation”, e não demorou muito para que eu esquecesse completamente qualquer discussão logística ou mercadológica. O filme a minha frente era muito mais do que uma ação comercial, era uma série de retratos perturbadores de uma realidade violenta e absurda que mata pessoas e rouba infâncias.

Adaptado do livro de Uzodinma Iweala e dirigido por Cary Fukunaga (da primeira temporada de “True Detective“), “Beasts of no Nation” (sem tradução para o português) conta a história de Agu, uma criança da África do Sul que perde toda a sua família para as forças ditatoriais do Estado e se vê em fuga. Capturado pelos rebeldes, Agu não tem escolha senão aliar-se ao grupo do Comandante (Idris Elba, que queríamos que fosse o 007) e tornar-se uma criança-soldado.

Na narrativa cheia de sangue e horror de Agu, a fotografia, também feita por Fukunaga, varia entre tons monocromáticos para retratar a infância sem cores da criança. Enquanto isso, o roteiro é aliado à direção competente de Fukunaga para imprimir ritmo aos atos que se desenrolam de forma inclemente durante mais de duas horas. Comandados por um maestro competente assim, as atuações espetaculares de Idris Elba e do garoto Abraham Attah brilham com muito mais força. O filme lançou hoje e as conversas sobre Oscar já foram iniciadas.

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À parte da técnica impecável, as imagens do filme prometem assombrar as mentes muito depois de seu fim. Fukunaga sabe a plataforma na qual está e não desvia a câmera, mesmo das cenas mais pesadas. O efeito buscado era perturbar, e ele consegue. Mesmo com as lentes à uma distância segura para a audiência, essa disposição de mostrar o inominável acaba por nos inserir no longa.

As discussões sobre como as guerras arrancam a infância dessas crianças ganham uma nova dimensão através das narrações de Agu. Além de compartilharmos o que ele vê, ouvimos o que ele pensa, o que acaba por nos destroçar ainda mais. Agu tem plena consciência do que está acontecendo ao seu redor apesar de seus 9 anos, e aos poucos vai chegando à conclusão de que esta infância perdida jamais será recuperada.

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Não há como se manter impassível ao que vemos quando estamos tão próximos de Agu e das situações que ele vive. Acompanhamos o menino através do mundo da brutalidade, sexo e drogas de forma cruelmente capaz, graças à Fukunaga, e logo as pequenas alegrias de Agu constrangem nossas pequenas tristezas. Eu assistia ao filme quando minha mãe viu apenas uma cena e me perguntou porque eu via um filme tão pesado. “Choque de realidade”, foi tudo o que eu consegui responder. Assistir um filme nos nossos macios sofás nunca foi tão desconfortável.

Obs.: dito tudo isso, cabe dizer que o feito da Netflix é revolucionária, e a gigante da streaming galga seu caminho ao Oscar, depois de levar diversos Emmys com suas produções. Diversas redes de cinema boicotaram o filme, que foi lançado na plataforma e nas telonas ao mesmo tempo. Isso era esperado; toda revolução gera desconforto quando em seu começo antes de gerar mudanças de fato. Só vamos ver quanto tempo irá demorar até que as redes parem de nadar contra uma maré irrefreável e comece a construir acima dessa torrente.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.