Resenha: Batman – Cavaleiro das Trevas III – A Raça Superior (primeira parte)

O mundo dos quadrinhos foi sacudido, recentemente, pelo Renascimento da DC. A iniciativa, que a princípio despertou muita desconfiança, parece ter dado certo, afinal de contas, a editora voltou a figurar entre as mais vendidas recentemente. Contudo, um universo paralelo ao Rebirth está se desenvolvendo na editora. O futuro distópico que Frank Miller trouxe à vida em 1986 com O Cavaleiro das Trevas Ressurge ganhou a sua segunda continuação depois do fraquíssimo Cavaleiro das Trevas 2. Ambas obras já foram devidamente comentadas aqui num post de referência, mostrando o que O Cavaleiro das Trevas Ressurge tem de melhor e de pior, confira aqui.

Cavaleiro das Trevas III – A Raça superior teve, até agora, quatro argumentos publicados no Brasil, sendo que suas outras quatro edições finais ainda estão em publicação nos EUA. O quadrinho se passa três anos depois dos acontecimentos de DK2, dessa forma, acredita-se que o Batman morreu (de novo) e, mais uma vez, o herói ganhou o status de uma lenda em quem muita gente se dá ao luxo de não acreditar. Contudo, o Morcego reaparece gerando um rebuliço na mídia e na opinião pública. Afinal de contas, o mascarado talvez não seja realmente um homem, mas sim uma entidade que desaparece e torna a dar as caras de o tempos em tempos.

cavaleiro das trevas ressurge

Junto disso, o abismo continua se abrindo entre humanos e heróis. Dessa vez, não apenas o Batman estava aposentado, mas também o Super Homem, contudo Lara, a filha de Kent com a Mulher Maravilha, vive no constante questionamento sobre os motivos pelos quais o pai havia protegido aquela gente. Se, por um lado, o último filho de Krypton era humanisticamente solidário às mazelas desse mundo, não é possível dizer o mesmo de Lara.

É através dessas duas linhas narrativas que A Raça Superior se desenvolve. Junto desse foco, cada argumento tem um mini-livro com uma espécie de spin-off que se conecta com a história principal. No geral a trama fica entre o morno e o promissor, mas o modelo de publicação é muito interessante e extremamente acessível. Definitivamente uma grande sacada da Panini.

Assim, vamos aos argumentos e a um parecer final!

Livro Um – “Uma boa morte? Isso NÃO EXISTE…”

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O Batman voltou a ação em Gotham. Como dito anteriormente, isso dividiu a opinião pública, pois, enquanto uns achavam que a figura praticava um vigilantismo opressor que em nada difere da vingança ou do autoritarismo fascista, outros acreditavam que bandido tem que apanhar mesmo e o departamento de polícia da cidade, quando não é corrupto, é incompetente. Tudo isso é transmitido através do visão da mídia, ou seja, Brian Azarello junto com Frank Miller, no roteiro, visitaram um dos grandes pontos altos de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, com a inserção da mídia tecnológica de hoje, além das tradicionais telinhas de tv.

Como já era de se esperar, quem está debaixo da máscara do Batman não é Bruce Wayne, tido como morto, e já passado dos 60 anos de idade, mas Carie Kelley, a Robin da primeira história de Miller. De fato, a passagem do manto sombrio é empolgante, embora não seja surpreendente.

Livro Dois – “Você não tá sozinho, chefe…”

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Com Kelley nas mãos da polícia de Gotham, Yindel, a “nova comissária”, quer saber do paradeiro do “verdadeiro Batman”. Aparentemente, assim como os leitores, os personagens também não compraram a ideia do seu sumiço. A pupila de Bruce Wayne mantém a história e as aparências enquanto conduz a sua fuga rumo à Batcaverna. Aqui, vale ressaltar que aparentemente a prisão e a fuga de Carie são injustificadas para roteiro, adicionando muito pouco (quase nada) à trama.

Por outro lado, é nesse argumento que Dr. Palmer traz os kandorianos para fora da redoma de vidro, algo que, instantaneamente, ele descobre ser um erro terrível. A partir daí, o líder de Kandor, Quar, e seu exército de super homens e mulheres resolvem voltar todo o seu ressentimento dos anos em cativeiro na cidade em miniatura para a raça a quem o seu carcereiro, o Super Homem, resolveu proteger.

A mini-revista aqui teve um papel muito importante na construção de Lara, uma personagem central para a história, pois ali ficou evidente toda a indisposição da jovem com sua mãe e principalmente com os seres humanos, um povo que ela não compreende e não faz questão de compreender. A verdade é que Kent e Diana tentaram ensinar Lara a ser humana, mas não obtiveram sucesso.

Livro Três “Acorde, Kansas. Acabou a moleza!”

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Aqui está o melhor argumento dos quatro. Provavelmente, isso acontece porque é nesse momento da história em que absolutamente tudo flui para o desenvolvimento da trama principal. Quar instaura um caos apocalíptico global e se eleva ao nível de um deus, fazendo com que Bruce Wayne e Carrie tenham de ir atrás de reforços: é preciso acordar o Super Homem, que hibernava na Fortaleza da Solidão.

Diante da possibilidade de rendição da raça humana, o que nem de longe seria positivo, visto que Quar pretende escravizar ou exterminar a população mundial, o Batman se impõe mais uma vez e decide “lutar”, numa das melhores sequências que se poderia esperar dessa HQ, com um final que colocaria face a face pai e filha.

Livro Quatro: “Entreguem seu filho.”

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Dramático, porém morno. É assim que podemos caracterizar o final da primeira parte de Cavaleiro das Trevas III – A Raça Superior. O Super Homem apanha da sua filha nos quatro cantos do planeta, pois ele decide não revidar. Ela, por outro lado, executa a sentença que lhe foi dada a seu pai. Culpado de traição por aprisionar e esconder Kandor. Aí está um ponto em que esse argumento é realmente positivo, pois a moral do Super Homem é colocada em xeque. Questões surgem , como, “por que ele se dizia o último filho de Kypton, com uma cidade inteira em miniatura dentro de uma redoma de vidro?” ou “Carcereiro não é um título de todo errado para o Homem de Aço, em se tratando da condição em que ele manteve Kandor”. Coisas que podem, realmente, manchar a reputação do super escoteiro.

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Concluindo, essa história não tem a audácia e o poder que O Cavaleiro das Trevas Ressurge teve em 1986. Até artisticamente falando, Andy Kubert faz uma arte extremamente competente, mas que emula o Frank Miller dos anos 80 em vários momentos. Porém, isso está longe de fazer com que essa seja uma história ruim, mas é inegável que o vai e vem entre razoável e morno é irritante. Resta esperar pela finalização da saga e as surpresas que ela pode trazer.

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