Baby Driver – a essência do caráter não é o que você faz

Esse texto contém spoilers de Baby Driver, mas leia assim mesmo. 

Não, este texto não é uma resenha do filme Baby Driver (“Em Ritmo de Fuga”, no Brasil), mas uma análise sobre os últimos minutos do filme e uma reflexão interessante sobre o julgamento do personagem principal. Caso você queira ler a resenha do filme, sem spoilersclique aqui.

Baby Driver

 

Num resumo bem simplificado do filme, Baby (Ansel Elgort) é um piloto de fuga tão jovem quanto habilidoso que trabalha para Doc (Kevin Spacey). Apesar de estar conscientemente na vida do crime, Baby tem planos de sair tão cedo quanto uma antiga dívida com Doc estiver paga. O que é importante de se notar é que, pilotos de fuga geralmente tem um código de moral próprio — eles só dirigem — mas, gradativamente, participam de maneira ativa nos crimes que auxiliam. Assim, até o fim do filme, o próprio Baby já terá sido responsável por alguns atos hediondos (como assassinar um parceiro de equipe ou dar tiros à queima roupa). É possível argumentar, contudo, que tudo isso foi feito em auto-defesa, o que apesar de questionável, é válido, mas não tira a responsabilidade dos atos de quem os cometeu.

3 Questions About Baby Driver, Answered by the Star and Director Themselves

O que chama atenção porém, depois de tudo isso, é que Baby é preso e condenado a pagar pelos seus crimes, mas não sem antes ser julgado. E qual não deve ter sido a surpresa do tribunal quando a maioria dos depoimentos de testemunhas e (até vítimas) do réu eram relatos positivos sobre sua pessoa? Seu pai adotivo, um idoso com deficiência auditiva que provavelmente foi cuidado por Baby tanto quanto teve que cuidar do menino na infância depois de ele ficar órfão; uma senhora que, ao ter seu carro roubado, teve também sua bolsa devolvida com um pedido de desculpas – isso sem mencionar que o carro, provavelmente, foi devolvido em bom estado e, por fim, uma das pessoas que teria sido vítima do grupo ao qual Baby pertencia afirmou que ele provavelmente a salvou ao avisá-la do assalto. Enfim, o protagonista do filme é um paradoxo pois é totalmente criminoso, mas também é totalmente bem intencionado. É importante lembrar que, antes participar da ação que desencadearia a maioria dos problemas da trama, Baby estava satisfeito com seu emprego honesto de entregador de pizza e foi cooptado novamente sob ameaças de seu antigo patrão.

E por falar em Doc, temos nele um excelente contraponto para Baby. Ele personifica a maldade travestida de carisma — é sorridente, bem-humorado e até piedoso, alguns diriam, visto que fez e honrou um acordo com Baby em vez de simplesmente eliminá-lo (o que, sinceramente, não teria feito nenhuma diferença para Doc). Contudo, perante a lei, ele é o mandante de vários crimes que lesam as instituições privadas e a sociedade. Se isso é justo, segundo o que Bats (Jamie Foxx) diz, ou não, é outra história. Apesar de tudo isso, no último ato do filme, Doc se compadece ao ver Baby e Debora e resolve ajudá-los em sua fuga final, inclusive, se sacrificando por isso. Uma ação verdadeiramente nobre.

Baby Driver

 

Em conclusão, o que Baby Driver de Edgar Wright nos diz é que, no caso de Baby, é possível ser uma pessoa boa e ser um criminoso sem necessariamente se tonar alguém perverso, mas, por outro lado, também é possível ser alguém inegavelmente perverso e ainda assim praticar atos da mais extrema empatia. Se no fim Baby será condenado pelos seus crimes, ou Doc absolvido pelo seu sacrifício, é impossível dizer, mas certamente o comportamento desses personagens não segue nenhuma normatividade moral.

 

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.
  • Raphael Dias

    Interessante essa análise de personagens. Eu não vi Baby Driver ainda, nem qualquer outro do Edgar Wright, exceto Shaun of the Dead, que vi faz tantos anos não lembro de nada. Ouvi falar muito bem de BD e acho que esse texto me convenceu a assistir finalmente (agora só falta eu separar o tempo). É bom ver um pouco de ambiguidade moral em personagens de blockbuster, ando sentindo falta disso. Não sei se hoje tem menos que antes (“antes” me referindo à década de 60/70, pós-código Hayss, apesar de alguns filmes na época do código terem feito uso dessa ambiguidade justo pra driblar as limitações), se está igual, se na verdade tem mais disso hoje em dia… Não sei, só sinto falta, como se nossa era fosse tão ambígua que o cinema (Hollywood) não está conseguindo acompanhar. Queria poder elaborar nesse tema, mas ainda não tenho os meios.

    • João Victor Fiorot

      Bem comentado, Raphael! Acho que o Wright explora essa ambiguidade como forma de fazer um filme que é 100% blockbuster, divertido, dinâmico e ainda assim com um conteúdo cinematográfico muito interessante. O Erik falou bastante disso na resenha do filme que você pode ler aqui http://www.pontojao.com.br/em-ritmo-de-fuga-2017/

      Valeuzão pelo comentário sempre enriquecedor 😉

  • CoringaTemer

    Parabéns pelo texto.

    • João Victor Fiorot

      Parabéns você por esse user maravilhouso!