Análise | Atividade Paranormal – para entender os filmes em ordem cronológica

“Atividade Paranormal” pode parecer uma franquia estúpida e indigna de um esforço que tente explicá-la – e talvez até seja. Ainda assim, assim como crianças parecem estar atraídas por amigos imaginários malignos, certos filmes de terror de gosto duvidoso exercem um magnetismo estranho. A franquia das câmeras que sacodem tem este poder: nem sempre entendemos o que está acontecendo em cena, nem sempre conseguimos dizer se algo está acontecendo, mas continuamos voltando para cada um dos cinco filmes. Desta forma, talvez valha a pena tentar desempacotar a saga das irmãs Katie e Kristie e seu simpático amigo Toby.

Atividade Paranormal: sucesso sobrenatural

Colocando cinco filmes mais um spin off no bolso, “Atividade Paranormal” é uma das franquias cinematográficas com a melhor proporção de custo versus retorno do investimento. O primeiro filme, de 2007, custou 15 mil dólares e faturou quase 200 milhões. Para você ter uma ideia melhor do baita lucro que isso representa, é como se você comprasse uma bombom por 50 centavos e em seguida vendesse ele por R$6.700,00. Investimento bacana, não?

O primeiro longa é, até hoje, o filme mais lucrativo da história, e embora suas sequências não tenham conseguido desbancar esse feito, todos foram consideravelmente bem sucedidas. “Atividade Paranormal 2”, de 2010, gastou 50 centavos e conseguiu R$30,00, enquanto o 3 levou R$41,40, o 4 embolsou uns R$15,00 e o 5 se contentou com R$4,00 pelos mesmos 50 centavos, dando um final à franquia – ou pelo menos colocando-a na geladeira por um tempo. O spin off “Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal” também ficou na faixa dos cinco reais de lucro – tão decepcionante que parou por aí mesmo.

atividade paranormal
Toma-lhe azul.

Ainda assim, o retorno fácil, mesmo que decrescente, fez com que os seis filmes fossem lançados em um intervalo de nove anos, sendo produzidos em um ritmo inversamente proporcional à qualidade que os longas apresentavam. Forçando até a quinta geração, a franquia esticou a história de sua assombração o máximo que conseguiu, morrendo de exaustão de ideias e bilheteria em 2015. Uma particularidade, porém, é que embora os lançamentos não exigissem que você tivesse visto os capítulos anteriores para conseguir entender o que acontecia, quem não se lembrasse dos pontos principais da trama teria pouco mais que uma sucessão de sustos.

Em outras palavras, uma franquia completamente descompromissada em sua qualidade exigia compromisso da audiência em acompanhá-la para compreendê-la. Coisa de maluco.

É desta forma que, algum tempo após a agonizante morte desta saga, se faz útil um guia para compreender exatamente o que aconteceu – e, afinal de contas, o quão paranormal foi essa atividade toda.

 

Parte 1: Toby, uma introdução (1988)

Em ordem cronológica, o primeiro filme seria “Atividade Paranormal 3”, de 2011. Ali, conhecemos as meninas Katie e Kristi, sua mãe, Julie, e seu padrasto, Dennis. A caçula, Kristi, tem um amigo imaginário chamado Toby. A partir do momento que ele surge, coisas estranhas começam a acontecer na casa, até o momento que ocorre um terremoto, o qual o os pais das meninas captam acidentalmente em vídeo. Na filmagem, poeira cai do teto e contorna uma figura invisível dentro do quarto do casal. Prazer: Toby.

Katie não tem contato com Toby, e inclusive caçoa a irmã mais nova por ter um amigo imaginário – o que, claro, faz com que ela seja trancada num quarto pelo anti-Gasparzinho. Outro desdobramento importante – além de Toby torturando a babá com mais sustos do que uma fatura de cartão de crédito – é um símbolo que Dennis posteriormente encontra em um livro de demonologia. A figura pertencia a um conciliábulo de bruxas que faziam lavagem cerebral em mulheres para que elas tivessem meninos e os entregassem para a seita, sem lembrar de nada depois. Talvez o que está perturbando a família não seja somente um fantasma chato.

Toby e as relíquias da morte.

O fato é que depois que Kristi fala que não quer mais ser amiga de Toby, o bicho-ruim começa a torturar Katie na frente da irmã mais nova, até que ela volta atrás e aceita obedecer à criatura. No dia seguinte, a menina pede à mãe para irem visitar a Vovó Lois, ao que Julie nega até começar ela mesma a ver o fantasma aprontando pela casa. Na casa da avó, Julie some, e quando Dennis vai procurá-la, encontra o mesmo símbolo das bruxas espalhado por toda a casa, desenhado na parede atrás de quadros, além de diversos outros desenhos ocultistas. É lá que, obviamente, ele descobre que Vovó Lois e um bando de bruxas de preto estão esperando ele para… Bem, prepará-lo para o Cirque du Soleil, talvez.

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Com Julie morta e arremessada da escada, Vovó Lois chama Katie e Kristi, e elas sobem as escadas na companhia de Toby. Os eventos que se seguem a isto são vistos em “Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma” (2015), o último filme da franquia, e descobrimos que Lois e um parceiro, líder da seita, treinaram as garotas para não só se comunicarem com Toby, mas também para usarem poderes diversos, como a capacidade de ver o futuro e serem mais sensíveis ao que acontece no plano místico. Essas são as únicas vezes que vemos as irmãs ainda na infância.

 

Parte 2: Amor de irmã (2006)

18 anos depois, encontramos a caçula Kristi já adulta e casada com Daniel, bem como seu filho pequeno, Hunter. Depois de um suposto assalto que só deixa o quarto do bebê intacto, o casal instala câmeras pela casa, as quais – adivinha! – começam a registrar ocorrências aparentemente sobrenaturais. Kristi se lembra vagamente de ter sido atormentada por espíritos quando era criança, o que Daniel descarta sem pestanejar, como bom personagem de filme de terror que ele é.

No entanto, Ali, filha de Daniel e enteada de Kristi, compra a história e começa a investigar o que está acontecendo na casa. A garota descobre a existência de demônios que trocam riqueza, sucesso e fortuna pela alma de um primogênito do sexo masculino – e, coincidentemente, Hunter é o primeiro homem a nascer na linhagem de Kristi em quase 80 anos. Não tarda para que Kristi seja possuída, presumidamente por Toby, o que força a família a pedir ajuda para a ex-empregada exorcista (?), Martine. A mulher fala que o processo é possível, mas que precisará enviar o espírito para um familiar. Daniel não hesita, e fala para ela despachar o demônio para a irmã de Kristi, Katie, e é isso que acontece. Tudo parece voltar ao normal.

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Isso nos leva diretamente para o primeiro filme, quando Katie e o namorado Micah começam a serem perseguidos por Toby. Katie conta que era atormentada na infância, e um investigador paranormal informa que um demônio que se alimenta de medo está no encalço dela há anos. O investigador fala para eles não se comunicarem com o espírito de forma alguma – o que Micah, claro, ignora, resolvendo provocar e tirar umas dúvidas com o Patrick Swayze do Mal através de um tabuleiro Ouija. Mesmo com o tabuleiro pegando fogo sozinho, Micah se recusa a chamar um demonologista, até que já é tarde demais, e o medo de Katie já a tornou disponível para ocupação externa.

Uma noite, após descer as escadas, ela grita o nome do namorado. Descobrimos em “Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal” que ela o faz ao ver Hector em sua sala. Mas aí Micah desce correndo e é morto por uma Katie surtada, enquanto Hector foge.

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Na noite seguinte, Katie visita a irmã, nos eventos mostrados ao fim de “Atividade Paranormal 2”. Primeiro, ela mata o cunhado, fazendo uma boa massagem no seu pescoço, e em seguida mata Kristi, arremessando-a contra a câmera. Ela então toma o bebê Hunter nos braços e vai embora. A garota Ali, sortuda, não estava em casa naquela noite, e reaparece em “Marcados Pelo Mal” para tentar explicar para o marcado Jesse que ele vai virar coisa ruim muito em breve e o manda para a casa de Vovó Lois. Você já consegue imaginar o quão certo isso dá, não é?

 

Parte 3: Hunter, rapazinho do mal (2011)

Pulamos meia década e, em “Atividade Paranormal 4”, conhecemos Alex, uma garota que mora com seus pais, Doug e Holly, e seu irmãozinho, Wyatt. A vizinha deles fica doente, então a família acolhe o filho dela, Robbie, para passar um tempo com eles até que sua mãe volte do hospital. Com a chegada do garoto, coisas bizarras começam a acontecer na casa, levando Alex e seu namorado, Ben, a instalarem câmeras para tentar entender o que está havendo. Logo eles veem que Robbie é um garotinho peculiar: deita na cama com Alex enquanto ela dorme, encara a garota durante o dia e tem um amigo imaginário temperamental chamado Toby que não gosta de ser vigiado e certamente se daria mal no BBB.

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Um dia Alex observa vários carros na casa da vizinha, e, ao tentar espiar, quase é pega por uma mulher vestida de preto. Em seguida, Wyatt aparece com o símbolo do conciliábulo nas costas – um perturbadoramente específico, que funciona como uma forma de preparar um garoto para ser possuído, veja só você. Quando a mãe de Robbie volta do hospital, descobrimos que a tal mulher é Katie, para nenhuma surpresa. O que sabemos a seguir, no entanto, é talvez o maior plot twist da franquia: Robbie é só um pobre garoto perturbado. O irmãozinho de Alex, Wyatt, na verdade, é adotado, e seu nome verdadeiro é Hunter. É nesse ponto que o filme surta um pouco e Wyatt/Hunter começa a fazer truques do Mister M, fazendo um lençol e Alex levitarem – sem muito propósito, visto que a garota está dormindo e, consequentemente, não está sentindo medo do que está acontecendo.

Além disso, o garoto já parece estar possuído, apesar de ser necessário o sangue de uma virgem – teoricamente Alex – para que o ritual acontecesse. Mas quem se importa com trama a este ponto, não é mesmo? Bobagem. De qualquer forma, Wyatt – agora definitivamente “Hunter” – está sob a posse da seita sinistra e de sua tia Katie mais uma vez, enquanto Alex é atacada por todas as bruxas da franquia de uma vez só. Aqui o arco de Katie, Kristi e Hunter é devidamente fechado, e a franquia chega ao seu fim, até porque acabou a história, não é?

 

Parte 4: Toby, uma conclusão (2013)

Bem, no cinema nada não está tão concluído que não possa ser continuado, então “Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma” vem entregar aquela sequência bacana que ninguém faz questão. A contribuição para a franquia é pequena: além de deixar explícito o treinamento sinistro de Katie e Kristi – que já estava bem óbvio desde o terceiro filme -, “Dimensão Fantasma” coloca uma nova família de azarados em uma casa construída pelas bruxas no mesmo lote onde as irmãs cresceram e foram preparadas pela seita, a qual aqui recebe o nome de “The Midwives” – algo como “As Parteiras”.

Tirando as constatações óbvias, o último filme da franquia é completamente descartável, envolve viagem no tempo e o roteiro é uma desculpa para responder perguntas que ninguém fez. A coisa é tão mal desenvolvida que Ryan, pai da menina Leila, a qual compartilha seu dia de nascimento com Hunter, descobre que as Parteiras precisam de um pouco de sangue da garota para que Toby consiga tomar forma física. Mas então, para quê Hunter existiu? Para que todo esse trabalho para possuir o garoto – preparando Kristi durante décadas para que ela fosse mãe dele – se no fim das contas o bicho queria uma forma física à parte do menino? E para quê Hunter e Leila precisavam voltar no tempo para 1992 para dar um corpo para Toby?

Enfim, pode parecer um esforço tolo procurar sentido numa franquia que obviamente se entregou ao jump scare gratuito após seu terceiro filme, mas é assim que a saga de Toby se conclui. Teoricamente o demônio ganhou forma física – sabe-se lá para quê, visto que já conseguia fazer de tudo sem corpo mesmo – na companhia de Hunter, Leila, Katie e Kristi, todos ainda crianças, em 1992 – ano no qual a casa teria pegado fogo. Na tentativa de explicar o óbvio, “Atividade Paranormal”, como um todo, passa a fazer menos sentido ainda.

Neste ponto, preciso admitir que gostava mais da franquia antes de começar a escrever este texto. Isso se dá porque, apesar dos sustos aleatórios, um dos elementos mais interessantes de “Atividade Paranormal” sempre foi a tentativa de desenvolver uma trama contínua que atravessasse seus capítulos. De fato, a história é explicável, mas ao fim deste texto, é amargo o gosto do que poderia ter sido; inicialmente com uma premissa simples e uma atmosfera perturbadora, a saga era promissora, e um fim de sua trama principal em seu terceiro filme a faria forte, inclusive para possíveis histórias isoladas.

O mais assustador aqui não foi Toby e suas amigas aprendizes de feiticeira, mas a ambição: mais do que dinheiro, a franquia começou a tentar contar uma história mais grandiosa do que era capaz. Foi assim que, assim como muitos de seus personagens contorcionistas, a franquia meteu os pés pelas mãos. O real fim assustador.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.