Comentário: Aquarius (2016) – um retrato sobre memória e nostalgia

Uma crítica musical sexagenária aposentada mora em um condomínio na região nobre de Pernambuco. Até aí tudo bem, não fosse um filme de Kleber Mendonça Filho. Aquarius  teve um pouco do seu brilho ofuscado por causa de uma polêmica infeliz (para dizer o mínimo) depois do festival de Cannes. Isso não muda, e nem poderia, o fato de que este é um excelente filme. A história de Clara (Sônia Braga) tinha tudo para ser a típica vida de uma mulher bem sucedida. Filhos criados, família unida, nenhum problema financeiro. Porém, uma grande construtora tem planos de implodir e refazer o condomínio onde ela mora, o Aquarius. Para executá-lo, o grupo Bonfim comprou todos os apartamentos do prédio, exceto a propriedade que Clara se nega a vender. Sendo assim, ela acaba morando sozinha no condomínio deserto e sofre inúmeros tipos de assédio para se desfazer de sua propriedade, já que apenas ela está embargando uma obra milionária da grande construtora.

Aquarius

A história contada aqui é inegavelmente simples, apesar de incomum. Mas ela lança holofotes sobre algumas questões da vida urbana que nós dificilmente paramos para pensar. Além disso, Kleber Mendonça Filho usa o espaço do seu filme para dar continuidade e aprimorar um estilo muito único de fazer cinema. Como cheguei a Aquarius vindo recentemente do também excelente O Som ao Redor, foi impossível não notar as semelhanças entre as obras em diversos aspectos. Primeiramente, há a divisão do filme em 3 capítulos. Em seguida, a crítica social ferrenha, exibindo um desconforto displicente nas relações entre entre patrões e empregados. E, por fim, outros detalhes minuciosos aparecem, como as referências cinematográficas aleatórias (um poster de Barry Lyndon, de Stanley Kubrick em Aquarius e um de Metropolis em O Som ao Redor) e a sua aparente fixação por festas de aniversário,  fotos antigas e histórias de vingança.

Além disso, é preciso falar de como o roteiro pontua coisas de maneira muito pungente, como o fato de a construtora se chamar Bonfim, e ela representar, de fato, o término de todo o patrimônio memoria que o condomínio Aquarius é para Clara. Além disso, vale dizer que, o prédio, da forma como é mostrado, tem muita personalidade e no projeto novo, a ideia é mudar o seu nome para uma coisa qualquer em um inglês genérico. Por fim, mas não menos importante, Mendonça Filho se vale do uso de vários atores amadores e isso cria momentos em que o constrangimento que ele deseja passar através da cena é muito autêntico porque provavelmente ele é real e aquelas pessoas estão realmente tímidas por estarem aparecendo na obra.

Aquarius

Contudo, em Aquarius, o aspecto mais relevante tratado no filme é a questão da nostalgia. A resistência que temos em ver o tempo passar e como escolhemos objetos para serem pequenos portais que nos ligam automaticamente ao passado, seja ele uma cômoda que viveu dias ardentes, ou um apartamento inteiro, que viu uma carreira de sucesso, um grande amor, e muitas histórias felizes. O cotidiano de Clara é completamente “perturbado” pela manutenção de suas memórias vivas no apartamento através de seus discos e de cada cômodo da casa. Não é apenas um imóvel numa área nobre de Recife que faz com que ela passe pelos infortúnios com a construtora, mas o carinho que ela desenvolveu por tudo o que ocorreu ali.

Por fim, a única questão que, às vezes, parece meio “jogada” no filme é a crítica social que opõem, em poucas palavras, os ricos e os pobres. Naturalmente, como se pode perceber pelos seus filmes e curtas, essa é uma caraterística intrínseca à obra do diretor, porém, em Aquarius, nem todos os momentos favoreceram essa abordagem e, às vezes, fica uma ligeira impressão de que aquilo não acrescenta à história. Concluindo, Aquarius é um filme que precisa ser assistido em seus detalhes, compreendido na minúcia dos diálogos e na forma como as cenas são expostas. Dessa forma, será possível aproveitá-lo em toda a sua glória.


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.