Análise | Aos Teus Olhos (2017) e os efeitos do linchamento virtual

Título: Aos Teus Olhos

Direção: Carolina Jabor

Ano: 2017

Pipocas: 7/10

Contém leves spoilers sobre o filme.

 

Vencedor de prêmios no Festival do Rio e Amostra de São Paulo do ano passado, o drama “Aos Teus Olhos” fez a sua estreia no último dia 12 nos cinemas nacionais. Com direção de Carolina Jabor, o longa brasileiro tende a ser polêmico, frenético e arrebatador para tratar sobre um tema bastante atual em nosso meio: o linchamento virtual e as suas consequências.

Facebook, Twitter, WhatsApp e Instagram são alguns exemplos de redes sociais as quais somos atrelados e quase não conseguimos viver sem – tóxicos, a depender de como usamos. Selfies, notícias, status, campanhas, prints, vídeos alheios que queremos compartilhar, sensacionalismo; todos esses aspectos consistem em atividades que movem tais plataformas e nos levam a nos expressar, expor opiniões sobre qualquer coisa. Opiniões, essas, se tornam ainda mais calorosas quando o assunto é polêmico e em cada meio é descrito de um jeito. Bastam uns emojis, uma descrição alarmante para chamar atenção.

Não importa o quanto esteja sendo compartilhado e o quão já falaram exatamente a mesma coisa, todos quererem comentar, julgar sobre tal alarde, ainda mais quando se trata de um crime. Pessoas de vários lugares, reunidos, movidos pelo ódio, em nome da justiça, sentem a necessidade de expressar o pensamento num só meio: a internet. Acidentes, bullying, agressões. Casos verdadeiros ou não, inconsequentes, nos colocamos como juízes de causas que não nos importamos ou logo esqueceremos.

Alex (Luís Felipe Melo) e Rubens (Daniel de Oliveira)

De modo provocante, contraditório, alarmante e ousado, baseado na peça “O Princípio de Arquimedes” e com inspirações do longa de 2012 “A Caça”, “Aos Teus Olhos” se propôs a dialogar sobre o poder do linchamento virtual e os seus efeitos ao trazer a vida do professor de natação Rubens (Daniel de Oliveira). Respeitado, amado e querido por amigos, colegas de trabalho, pais e alunos, se vê de cabeça para baixo depois de um dia de competição no clube em que ensina. O aluno, Alex (Luís Felipe Melo), conta para sua mãe, Marisa (Stella Rabelo), que o seu professor excedeu os limites profissionais ao tentar lhe dar um beijo na boca. Inconformada, Marisa expõe o ocorrido num grupo no WhatsApp. Não satisfeita, recorre a uma postagem no Facebook, levantando o ódio virtual.

Marisa (Stella Rabelo), Davi (Marco Ricca), Ana (Malu Galli), respectivamente.

“Aos Teus Olhos” é o tipo de filme que não enrola para incitar o espectador para a realidade a qual está relatando. Nos minutos iniciais, já somos postos a avaliar os personagens através de gestos, comportamento e diálogos. E com uso excelente da câmera, Carolina Jabor utiliza da objetividade e subjetividade para que entendamos de perto o que se desenrola durante o longa. Outro exemplo que confirma isso, é a sequência intrigante e intensa que nos deixa a par das mensagens e comentários no WhatsApp e Facebook.

aos teus olhos

Disposto a passar uma experiência inquietante, de revolta e dúvida sobre o crime e a inocência que Rubens alega, Carolina tratou de envolver o público de todos os jeitos ao trabalhar com personagens que realmente colocam a prova e representam comportamentos, opiniões, reações e culturas diferentes diante do crime de pedofilia. Um acerto louvável da diretora de “Boa Sorte”, foi explorar a situação em um dia, firmando assim a urgência que a temática desenvolvida pede o imediatismo das proporções tomadas. Como também acertou ao inserir na narrativa, através da figura de Rubens, detalhes que enriquecem a trama a medida que ela se intensifica.

Porém, apesar de tantos acertos e se conduzir tão firme com a sua história, Carolina pesou a mão na narrativa, passando a sensação de que o filme não encontraria o seu ápice, mesmo que o contexto já estivesse estabelecido. O que rende uma atmosfera rasa e vaga na resolução, concluindo a película da maneira mais fácil.

Provocante e polêmico, “Aos Teus Olhos” finda sem pressa e da maneira que pretendia o teor de sua história, mesmo que não siga por caminhos esperados. É verdade? Como aconteceu? Você estava lá? Qual versão convence mais? A pessoa é culpada? É inocente? Ela merece… Ou é apenas a justiça aos teus olhos?

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.