Ao Cair da Noite (2017): o medo faz parte do show

Esse texto contém spoilers sobre o filme “Ao Cair da Noite”, mas continue lendo.

O gênero do terror apesar de suas variadas tentativas em se reinventar, no caminho pode encontrar dificuldades em agradar. Muito diferente das repetidas investidas em filmes de possessão, entre apostar no gore ou combinar a comédia e o horror, temos o que Steve Rose, jornalista do jornal inglês The Guardian chama de “pós-terror”. Para ele, longas como “A Bruxa”, de 2016“Demônio de Neon”, de 2016 são exemplos de empreitadas que não entregam o tradicional, e contam histórias de terror, basicamente, com abordagens diferentes. E como também citado por ele, o recente “Ao Cair da Noite” faz parte desse novo termo.

Chegando ao catálogo da Netflix há pouco tempo, o longa foi capaz de conseguir muitos elogios da crítica especializada, mas não de seu público. Começamos o filme sendo apresentados abruptamente a uma família – com pessoas protegidas com máscaras de gás e luvas nas mãos –  que dolorosamente se despedem de Bud (David Pendleton) enquanto se desculpam pelo o que está prestes a acontecer: Paul (Joel Edgerton) tirando a sua vida de Bud. Ao final da cena, chegamos à conclusão de o porquê Paul ter feito o que fez, por termos a noção de que Bud ter sido exposto a uma contaminação, mas não sabemos como.

Logo, vemos os personagens lidarem com o luto, sendo manifestado em sonhos através de Kevin (Kelvin Harrison Jr.), enquanto lentamente vamos adentrando na atmosfera no filme diante da sua constante ambientação e fotografia escuras, somos surpreendidos com a quebra do ritmo com a chegada de Will (Christopher Abbott) que acreditava que a casa que entrou estaria vazia e poderia ter os suprimentos para sua esposa e filho, deixados em outra casa. Com isto, vemos o longa trabalhar em cima da confiança em Will de que ele não mentiria sobre sua família não estar contaminada, por isso invadiu a casa. Depois de um longo processo, temos as duas famílias confiando uma na outra e passando a dividir o mesmo lar.

Não demora muito para ficar claro que o trailer que prometia um suspense eletrizante com altos jumps scares estava longe de acontecer. Assim como o telespectador, que tenta entender o motivo da contaminação, essa é uma explicação que os personagens também buscam, e o melhor a se fazer é se protegerem. Mas uma coisa é evidente: à medida que não temos a explicação da causa, o medo é o que se faz presente. Se o filme não foi o suficiente para quem queria os sustos, o seu triunfo está na maneira sensorial que foi conduzido.

A cada passo, eles não sabem como isso acontece, mas para cada barulho estranho vemos o medo escancarado enquanto a câmera percorre seus olhares para um lugar vazio, sem nem mesmo os rastros de uma possível ameaça e, mais uma vez, quem carrega e expressa – no que flerta também sobre outras emoções humanas e suas complexidades – essa abordagem com excelência é Kelvin Harrison Jr., mantendo sua interpretação no mesmo tom, desde os primeiros minutos do filme. Assim, é com ele que se sucede a maior a reviravolta do filme, num desfecho repleto de tensão em que acompanhamos os limites que o medo pode levar, se nos deixarmos conduzir por ele, traçando um diálogo em nome da sobrevivência.

“Ao Cair da Noite” optou pelo desafio de ser diferente e não agradar a todos do que fazer mais do mesmo. Embora o seu ritmo lento seja seu ponto fraco e destoe do seu bom roteiro, apreciá-lo vai depender de como cada um encara a sua trama, apesar dos que buscam por explicações lógicas e sentido para abraçar o que lhe é diferente.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.