Anomalisa (2015)

“-Acho que você é extraordinária.

-Por quê?

-Não sei ainda. Só me parece óbvio que você é.”

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Título: Anomalisa

Diretor: Charlie Kaufman

Ano: 2015

Pipocas: 8,5/10

Romances às vezes são inusuais – e não só na vida, mas como na arte que ela imita. Ainda assim, quando vemos um romance ser desconstruído em nossa frente, o desconforto é inevitável: primeiro porque não estamos acostumados a vermos este tipo de desconstrução na ficção, pelo contrário; segundo porque parece familiar demais para conseguirmos nos manter seguramente distantes da história. Assim sendo, quando um filme como “Anomalisa” surge, ficamos em xeque, nos sentindo desconfortavelmente perto do que acontece.


Em “Anomalisa”, Michael Stone (David Thewlis) é um autor de auto-ajuda para o qual todas as pessoas, independente de idade e gênero, têm a mesma voz e mesmo rosto (o de Tom Noonan). Isso faz com que a vida de Michael seja um lamaçal de monitonia e depressão, apesar do sucesso de seu livro, até que em uma de suas palestras Michael encontra alguém que finalmente tem uma voz e uma face diferente – a extraordinária anomalia Lisa (Jennifer Jason Leigh).

A técnica de stop-motion usada em “Anomalisa” busca fazer com que o filme seja estranho em seu primeiro contato, e funciona. Isso não se dá somente pelo fato de ser um filme stop-motion contando uma história obviamente madura (o filme tem cenas de sexo explicíto e palavreado chulo, levando uma censura 18 anos nos Estados Unidos), mas também por causa dos óbvios traços nas faces dos personagens. Embora pareça uma estranheza necessária para a movimentação rica das expressões, a narrativa revela algo mais curioso a partir daí.

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Ainda assim, não demora para que a estranheza passe. A natureza falha e resignada de Michael faz com que seja difícil não se identificar com o personagem. Isto era vital para que a história funcionasse, visto que Michael é o único personagem diferente que temos durante grande parte do filme, e isso é entregue com maestria: a cada nova insegurança, ato errôneo e tentativa de acerto de Michael, vemos um ser humano tentando tirar o melhor de uma situação – ou de toda uma vida – essencialmente sem sentido e medíocre. Há algo mais humano do que isso?

Entretanto, a segunda metade do longa tira o foco de Michael e o põe sobre a maneira como o personagem – nesta altura, toda a humanidade – percebe os outros. O diretor Charlie Kaufman passa a demonstrar como é totalmente irrelevante o fato de que o taxista, o recepcionista do hotel ou mesmo o filho de Michael serem a mesma pessoa; uma vez dentro do oceano de marasmo em que se encontra, o igual já não impressiona Michael. O que mais me impactou foi perceber que eu mesmo não notei que todos eram a mesma pessoa até já vários minutos dentro do filme. Embora isso possa indicar o quão ruim é a minha capacidade de reconhecer faces, isto também aponta o descaso com o qual tratamos pessoas transitórias em nossas vidas – ou como tratamos seres humanos como coisas transitórias, para começar.

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A câmera de Kaufman brinca com a máxima de que a beleza está nos olhos de quem vê, demonstrando que a diferença está na vista de quem a percebe. Assim sendo, da mesma forma que o diferente nos desperta sensações quando assim o permitimos, a partir do momento que percebemos aquilo como comum, algo se apaga – nos nossos olhos. O singular sempre o será, caso o percebamos ou não.

É importante notar que esta profundidade e humanidade não fazem com que “Anomalisa” seja um filme perfeito. Embora não haja cenas desnecessárias, saímos da exibição com a sensação de que o filme se estende mais do que o necessário. Além disso, a técnica e a narrativa utilizada não agradam a todos, e não há mal nisso; há histórias que simplesmente não nos capturam. Estes problemas, no entanto, somente enfraquecem o impacto do filme, sem torná-lo inócuo.

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“Anomalisa” é um feito artístico rico em interpretações que marcará profundamente aqueles que se identificarem enquanto poderá gerar desconforto naqueles que não se afetarem. Assim como as pessoas que transitam no longa, sua relevância será determinada pelos olhos que o virem: serão somente estes que definirão se “Anomalisa” será o amor de suas vidas que será lembrado depois de onze anos ou só mais um filme indistinto na multidão. Olhando sob este prisma, talvez a humildade e autocrítica de Kaufman seja o maior mérito desta produção. Caso não o seja, sua fragilidade tipicamente humana certamente o é.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.