Resenha | Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (2018) – sem spoilers

Quando a franquia “Animais Fantásticos” foi anunciada, muitos se perguntavam qual seria a verdadeira proposta por trás do primeiro filme, mas logo após a sua estreia nos cinemas essa idealização já se mostrava um pouco mais clara. Chegando no segundo capítulo, a nova saga do universo bruxo conseguiu chamar a atenção para uma nova aventura épica protagonizada por Newt Scamander e seus amigos, agora com a adição de um Dumbledore mais jovem, e mais uma vez tendo seu roteiro escrito pela própria J. K. Rowling, as expectativas se mantinham nas alturas. Mas a realidade é que “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” não era o filme que todos estavam esperando.

Título – Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (“Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald“)

Direção – David Yates

Ano – 2018

Pipocas: 7/10

Desta vez não estamos mais em Nova Iorque – a cidade só está presente na trama nos momentos iniciais do filme. O ambiente escolhido para o desenrolar da história é a Paris de 1927, passando em alguns momentos também por Londres – minha Hogwarts está viva! A história se inicia com uma fuga (para lá de sensacional, diga-se de passagem) de Grindelwald (Johnny Depp) das mãos do MACUSA durante a sua transferência. Uma coisa que deu para notar desde a primeira cena é que existia uma mudança visual considerável na composição do filme, e que os créditos sejam dados em grande parte ao talentosíssimo Philippe Rousselot, diretor de fotografia do filme. Sei que, logo de início, não são os aspectos técnicos que aparecem na nossa lista de prioridades para analisar este filme, mas esse é um mérito que eu simplesmente não poderia deixar passar, o filme é visualmente lindo.

Depois de escapar, vemos Grindelwald saindo em busca de aliados para a sua causa, enquanto o Ministério da Magia britânico começava a se movimentar para poder deter o bruxo das trevas. Nesse meio tempo, vemos Newt (Eddie Redmayne), que agora passa por um impasse, já que seu visto foi inutilizado após os acontecimentos em Nova Iorque no filme anterior. A história de “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” – pelo menos o que podemos julgar ser a principal – é até bem simples, mas não foi o suficiente para a mente expansiva de Rowling.

Acredito que, antes de entrarmos nessa parte do texto, é importante dizer que eu tenho um carinho muito grande por todo esse universo e que as minhas expectativas estavam sim altas para presenciar tudo isso. Esse filme não é nem um pouco do que eu pensava. Existem inúmeras camadas presentes neste, que pode ser considerado o filme mais denso do Mundo Bruxo, e digo isso porque ele está carregado de informações que não foram diluídas da melhor forma por aqui. J. K. Rowling é, sem nenhuma sombra de dúvida, uma das maiores escritoras que a nossa geração pode presenciar. Ela é extremamente conteudista, mas nunca lhe faltou coração no que fazia. Nós conseguimos ver em alguns momentos o sentimento colocado no roteiro do filme, mas conteúdo definitivamente não falta.

O filme chega carregado de informações e fan services que, para quem já conhece toda esta ambientação, são fantásticos. Mas mesmo trazendo tudo isso consigo, ele só esqueceu de entregar uma coisa: uma história bem contada com um começo, um meio e um fim. É difícil dizer isso, mas o maior problema de “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” é exatamente o roteiro que a própria J. K. escreveu. Existem muitos personagens, muitas histórias que se misturam e uma sensação de que tudo está sendo jogado na sua cara, e em alguns momentos é muito complicado de receber aquilo sem questionar o que está sendo visto. Ele depende de acontecimentos pontuais e de coincidências que, se não se repetissem tanto ao longo do filme, ou se fossem melhor colocadas, talvez a narrativa soasse mais orgânica.

Os personagens em si são as melhores coisas do filme. Dan Fogler mais uma vez entrega um Jacob que rouba a atenção em quase todos as cenas em que aparece e desta vez não se prende somente ao lado cômico do personagem, mas manda muito bem nos momentos dramáticos contracenados com Queenie (Alison Sudol), assim como o jovem Dumbledore, carismaticamente interpretado por Jude Law. Entre os novos personagens, Zoë Kravitz se destaca como Leta Lestrange – mesmo eu não achando a atuação dela nesse filme lá essas coisas. Mas se tem um personagem que precisamos comentar um pouco, esse é Grindelwald. Toda a questão de que Depp estava envolvido no filme acabava gerando um certo nível de preocupação nos fãs da franquia – e não era somente no quesito atuação. No geral, é uma personificação bem decente do personagem, um pouco caricato, mas no terceiro ato a presença dele preenche muito bem o filme, tanto com seu discurso como na sua postura – que no inicio do filme passava a impressão de que era um vilão tão grande quanto Voldemort, talvez até pior -, mas para um filme que carrega “Os Crimes de Grindelwald” no título, a verdadeira ameaça foi apenas sutilmente demonstrada.

Por fim, o terceiro ato do filme é uma verdadeira confusão de informações passadas em ritmos diferentes. Talvez existissem maneiras mais eficientes de apresentar algumas das reviravoltas do filme sem deixar o seu andamento comprometido. O longa tem uma construção diferente, tanto quando comparado com o anterior como com os próprios filmes de Harry Potter que foram dirigidos pelo David Yates. E isso não é uma coisa ruim. Na verdade, é uma mudança muito bem vinda já que estamos falando de uma história diferente e com uma idealização bem mais madura, mas que, ainda assim, pode parecer cansativa para muitos expectadores.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

A verdade é que ver um filme deste universo, com um roteiro feito pela criadora de tudo isso e notar tantos problemas nele é muito difícil. A direção do Yates aqui é umas das melhores da franquia como um todo, a fotografia é sensacional e os efeitos especiais preenchem a tela de uma maneira incrível, mas a história não consegue acompanhar o mesmo nível dos demais elementos do filme. Talvez a proposta de fazer cinco filmes tenha sido um problema para a forma como essas aventuras estão sendo contadas ou, quem sabe, a forma como o roteiro está sendo esculpido precise de um refinamento. “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” pode até ser considerado um filme corajoso em certos pontos já que ele se fez bem diferente do que era esperado, mas é indiscutível que esse filme só serviu para introduzir – pela segunda vez – uma história que talvez só vá ser contada de fato no próximo filme.

 


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Jardas Costa

PontoCaster, fã da DC e da Marvel (não DC vs Marvel), apreciador de um bom kalzone e sempre esperançoso por toda obra que está por vir, porque todo bom filme é uma boa forma de se compartilhar a vida.