Análise | Vale a pena repetir de novo? Mais confusão nas traduções de filmes de terror

Falar sobre o problema nas traduções de títulos é algo que sempre iremos fazer, pois se trata de uma questão em que todo ano a equipe responsável dará uma mancada.

Como os embaraços são persistentes, vamos aqui relembrar ou conhecer alguns títulos. Dos casos redundantes, à repetição dos nomes sem sentido, há uma enorme confusão nas traduções em filmes de terror. Prontos ou não,  sigamos para a segunda parte da análise desta confusão.

Que domínio de site é esse?

Talvez o título que ilustra o topo deste tópico não seja desconhecido para você. Muito disso é por conta do elenco e, claro, o nome em português: “Menina Má.com” (2005). Estrelado por Ellen Page e Patrick Wilson, o longa nos apresentou Hayley Stark, uma garota que passou semanas conversando com o fotógrafo Jeff (Wilson) e depois de, finalmente, se encontrarem, as segundas intenções da moça são postas à mesa.

No inglês, o filme é chamado de “Hard Candy”, algo como “Doce Duro”, mas que na verdade remete a garotas menores de idade na Internet. No nosso caso, a criatividade se limitou ao “.com” entregando boa parte do que iríamos acompanhar na trama. Ok, o título tem super a ver com a ideia das conversas online entre os personagens para posteriormente as consequências da ingenuidade subversiva com que Jeff não esperava ter que lidar. Mas a formação desse título foi realmente favorável?

Bem, lá em 2002, dois anos antes do coleguinha surgir, tivemos “Net Games” (no original), ou melhor traduzindo, “.Com Para Morrer”. Tchan ran! Olha o “.com” de novo aí, gente. Se traduzido para “Jogos da Internet” poderia dizer qualquer coisa e ser simples, e “Jogos da Web” só pioraria o caso, mas “Perigos da Web” daria um ar mais adulto voltado para o suspense sobre Adam Vance (C. Thomas Howell), um cara frustrado com a rotina e que decide se aventurar na web em busca de prazeres sexuais online. Como sabemos o resultado da engenhosidade, o escolhido foi o mais genérico, mas não sei que domínio de site é esse que, para acessar, o “.com” vem na frente do nome.

Mas calma que, para fechar esse primeiro exemplo vamos a mais um filme. Acredito que esse não seja incógnito, ou “Medo Ponto Com Br” (2003) passou mesmo batido? Dessa vez, temos uma prova de que a tradução ao pé da letra não é tão ruim assim. Na trama, quatro vítimas de assassinatos brutais estão ligadas a algo comum: o acesso ao site feardot.com antes de suas mortes. Assim como o website, é o título de origem.

É curioso como entre 2002 e 2005 três filmes foram lançados com a semelhança dos títulos – como se não bastasse, em 2016 tivemos “Slasher.com” ou como foi chamado depois de lançado diretamente para DVD: “Encontro.com”. Parece uma comédia romântica, mas na verdade é sobre um casal que se conheceu na Internet e, para irem mais a fundo na relação, escolheram as florestas do Missouri para explorarem e se conhecerem. Para tristeza de ambos, acabaram descobrindo que o local esconde coisas terríveis e assustadoras.

A morte agindo de várias formas

Provavelmente o tópico acima foi engraçado para você, e aqui vamos para um lugar mais comum: a repetição da palavra “morte” nos nomes dos filmes. Não importa a redundância, a auto explicação desnecessária ou combinações nada atraentes, conquanto que dê mais estilo ao título.

Em 2016, os amantes do horror foram prestigiados com uma grata surpresa chamada “Hush – A Morte Ouve”. Nele conhecemos Maddie (Kate Siegel), uma escritora que vive numa casa isolada – o detalhe é que ela perdeu a audição e as cordas vocais depois de uma meningite aos 13 anos. No meio disso, a moça é perseguida por um homem mascarado que deseja matá-la.

O “hush”, que significa “silêncio”, foi uma escolha ideal devido à forma com que o diretor Mike Flanagan abordou o terror apelando para o sensorial. Agora o “A Morte Ouve” se tornou um subtítulo com um trocadilho tosco e banal que não causou o impacto que desejou ter.

Cena de “Hush – A Morte Ouve”.

Partindo para outro exemplo, é inegável o efeito positivo de “A Morte Pede Carona” e como o título é um daqueles casos raros que coroaram o filme com um grande reconhecimento – ou no mais recente “A Morte Te Dá Parabéns”. Mas o bicho pega quando a coisa se mostra comum e sem criatividade, e como exemplos temos “Chamas da Morte” (1981), “Mansão da Morte” (1986), “Rota da Morte” (2003), “Carta Para Morte” (2006), “Encontro Com a Morte” (2006), “Caminho da Morte” (2016), “O Sono da Morte” (2016).

Para fechar, como não lembrar da trilogia “Perseguição”? O primeiro (2001) recebeu o subtítulo de “A Estrada Morte”; o segundo (2008) “O Resgate” e o último lançado em 2014 “Correndo Para a Morte”. De algum jeito depois de passar pela estrada da morte, houve o resgate e depois voltaram correndo para a morte (pra quê?!). Vai entender.

Que coisa maldita!

Indo para o terceiro e último exemplo desse texto, vamos para uma palavra que é tão batida que até foi usada para fins de comédias românticas. Lembrou ou não sabe do que estou falando? O filme em questão se refere a “Maldita Sorte” (2007), estrelado por Jessica Alba e Dane Cook. Mas puxando para o terror, não tem como ignorar o porquê de a balança pesar sempre para ideias já usadas, como se precisasse evidenciar o horror combinando algumas palavras com uma última chocante. Pode não parecer tão ruim, mas dizer no nome que a casa é do medo quando o contexto não corresponde, não faz muito sentido.

Parece que os responsáveis pela tradução são tentados a cair no mesmo lugar ou algo muito ruim pode acontecer se a trivialidade não ocorrer. Ao se depararem com a trama de um patriarca (Bob) que decide levar a família para uma viagem na Califórnia a fim de se restabelecerem, mas ao fazer um desvio no caminho, terminam numa área deserta e ficam à mercê de um grupo de canibais, parece que a melhor nomeação possível é “Viagem Maldita” (2006).

Um vislumbre de “Viagem Maldita”.

Daí podemos analisar que se parte um receio de colocar um título alternativo, mais elaborado ou ao pé da letra com o pressuposto de que não chamaria a atenção da audiência, mas permanecer com ligações tão óbvias e preguiçosas para ser “atraente” na divulgação é o mais agradável a se fazer. Aí vem aquela perguntinha que algum momento surge: sair ou ficar no comodismo? Logo, é divertido ver, por exemplo, a Netflix se aventurar e investir em traduções literais, como o caso de “Ele Está Lá Fora” (He’s Out There, 2018).

Vamos encerrar com outras citações. “Cidade Maldita” (1980), “Colheita Maldita” (1986), Herança Maldita (1995), “A Cidade Maldita” (2003), “Estrada Maldita” (2007), “Cidade Maldita” (2007),  “Terra Maldita” (2008), “Floresta Maldita” (2016), “Fortuna Maldita” (2018).

Percebem como é fácil alterar a primeira palavra e manter a última? E que dos nove nomes mencionados, apenas um foi antecedido do artigo “a”? É tanta coisa “maldita” que é fácil se perder nos nomes.

Esse texto foi anteriormente publicado no site Sessão do Medo.

The following two tabs change content below.

Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.