Análise | Por que tanto “pânico”? A confusão nas traduções de filmes de terror

Alvo até mesmo de piadas, já é sabido por muita gente que as traduções de filmes e séries  não é a parte mais querida entre os espectadores. Isso vale para qualquer gênero: se não temos traduções que nada têm a ver com a obra, recebemos títulos que dão spoilers, resumem o enredo no subtítulo ou que se tornam redundantes – um exemplo recente é do vencedor do Oscar de Melhor Filme, “Moonlight: Sob a Luz do Luar”.

Mas vamos confessar que há casos que tornaram o longa-metragem famoso devido ao seu nome, ou poderíamos esquecer da franquia “Se Beber, Não Case!” (2009)? Bem, como a nossa pauta é sobre o terror e suspense, nada mais justo do que explorar um pouco do que há de bizarro nos títulos desse universo. Com muita polêmica, vamos nessa.

Pra que tanto pânico?

O primeiro exemplo de muitos é o uso constante de nomear os filmes com a palavra “pânico”. Relembremos alguns: “Pânico no Lago” (1999), “Pânico na Estrada” (1999), “Pânico em Lovers Lane” (1999), “Pânico no Deserto” (2005), “Pânico na Ilha” (2009), “Pânico na Neve” (2010), “Pânico na Escola” (2012), “Pânico na Floresta” de 2000 e o mais conhecido de 2003. Onde poderá ter mais pânico?

O filme francês (“Promenons-nous dans les bois” no original, ou “Deep in the Woods” no inglês) de 2000 nada tem a ver com o icônico longa de 2003, mas já serve para apontarmos aqui para o quesito repetição nas traduções brasileiras, pois, é só pesquisar pelo título nacional para se esbarrar em qualquer uma das  produções.

Acha que acabou por aí? A trama da família de canibais iniciou com boa forma ao combinar o terror e o suspense num produto memorável, e devido ao sucesso, por que não investir numa sequência? Os produtores certamente não perderam tempo, só não contavam com a astúcia da Playarte Pictures, a distribuidora responsável no Brasil. 

No inglês, a película foi vinculada com o nome “Wrong Turn”, algo como “Curva Errada”, e assistindo ao filme faz todo sentido uma vez que os protagonistas acabaram se desviando do caminho projetado e caindo nas mãos dos assassinos da região. O seu sucessor manteve o bom atributo, com adição de “Dead End”, então ficou “Wrong Turn: Dead End”, em referência a uma cena do antecessor.

O problema começou quando em 2007 a Playarte decidiu chamar de “Pânico na Floresta 2” o desconhecido “Timber Falls” (no original). O filme rapidamente repercutiu, mas confundiu muitas pessoas depois que perceberam que a história não era nada parecida com o longa lançado há quatro anos. Mais tarde, no mesmo ano, a narrativa dos canibais se tornou notória, mas teve que ser nomeada como “Floresta do Mal”. A partir daí a confusão continuou já que os filmes seguintes ora eram atrelados aos moldes de 2007, ou ao de 2003. Ou seja, talvez você veja por aíFloresta do Mal: Caminho da Morte” e “Pânico na Floresta 3”, mas que no final se referem ao mesmo longa lançado em 2009.

Do que você tem medo?

O nosso segundo exemplo é relacionado aos filmes que têm tanto “medo” em seus títulos. São eles: “Medo em Cherry Falls” (2000), “Abismo do Medo” (2005), “Ilha do Medo” (2010), “A Marca do Medo” (2014) e no caso que iremos tratar, “Medo Profundo” de 2007 e de 2016.

Aqui vai um caso especial de familiaridades, ambas distribuídas pela Playarte Home Video e tendo como temática animais predadores. Ao menos dessa vez há um adendo que não prejudica as produções. O menos conhecido lançado direto em DVD, no nome de origem é “Black Water”, o que remete ao cenário em que os personagens se veem ameaçados por um crocodilo num pântano. Já no caso mais recente, “47 Meters Down” (com sequência marcada para  novembro de 2019) é o número de metros que as irmãs protagonistas estão no fundo do mar, presas numa enorme jaula, enquanto um tubarão está à espreita.

Outra boa notícia são as nacionalidades dos filmes (o primeiro sendo australiano e o segundo passando pelo EUA, Reino Unido e a República Dominicana) assim como cada um pôde conquistar seus méritos apostando em propostas diferentes. Vale ressaltar que, no ano passado a trama do crocodilo ganhou sinal verde para mais um filme intitulado de “Black Water: Abyss”. A história acompanha um grupo de amigos que descem a boca de uma caverna para se protegerem de uma tempestade, mas lá são encurralados por crocodilos. Sei não, mas parece que depois de tantos tubarões, os crocodilos e jacarés estão voltando aos holofotes em projetos ambiciosos.  

Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, mas tinha…

Ah, lar doce lar. Sabemos que ao termos descrições de histórias de famílias que se mudam para encontrar novos rumos, mas o que recebem é uma casa do capiroto é coisa muito comum no mundo do horror. Das mais diversas casas que vemos ao longo dos anos serem plano de fundo para muitas tramas, é mais do que evidente que há bastantes longas que começam com “a casa” em seus nomes – nem as animações escaparam, vide “A Casa Monstro” (2006).

“A Casa do Espanto”(1986), “A Casa Amaldiçoada” (1999), “A Casa de Vidro(2001), “A Casa de Cera” (2005), “A Casa de Sangue” (2006), “A Casa” (2010), “A Casa Silenciosa” (2011), “A Casa dos Sonhos”(2011), “A Casa dos Mortos” (2015), “A Casa do Medo” (2015), “A Casa do Medo” (2018) e “A Casa do Medo – Incidente em Ghostland” (2018). É claro que ainda há muitas casas por aí (até a que Jack construiu), mas vamos focar nas duas últimas.

O primeiro (“Bad Samaritan” no original) lançado direto em DVD pela Imagem Filmes recebeu tal título traduzido e a trama é sobre uma dupla de assaltantes que, ao invadir uma casa terá que lidar com consequências inesperadas. O segundo foi distribuído pela Paris Filmes e estreou no dia 18 de outubro do ano passado, marcado pela polêmica de um acidente no set que resultou na desfiguração do rosto de umas das protagonistas (a atriz Taylor Hickson).

A questão é que o filme se adequa a uma das exemplificações que mencionei no início do texto: a redundância dos títulos. No inglês é “Ghostland”, na tradução é “A Casa do Medo” (nome bem genérico, por sinal) que ainda recebe a somatória de “Incidente em Ghostland”. O porquê de a terra fantasma nomear a película é sabido por quem assistiu , mas o caso aqui não deixa de ser gritante, já que poderiam ter deixado apenas a menção do incidente ou o nome mais genérico.

Pagando bem, que mal tem?

Para esse último exemplo vamos para algumas menções honrosas. Outra incansável e repetitiva nomeação em traduções brasileiras é o “mal”, mal que segue e que deixa tudo tão manjado.

Como esquecer de “It Follows” (2014) que simplesmente foi reduzido a Corrente do Mal“? Não querendo ser recorrente quanto ao uso da palavra, mas esse é mais um arranjo em que poderia ser mantida a ideia original do nome em vez de entregar o resumo básico do que a trama tem a oferecer.

Pode piorar? Sim, pois não tem como ignorar a saga da boneca prima distante do Chucky (forcei a barra?)… É sobre ela mesmo que estou falando, a Annabelle.

O primeiro filme surpreendeu por deixar o nome da miserável ser o título, mas aí veio a continuação estragar o que estava bom (só o nome, ok?), visto que foi chamado de “Annabelle: A Criação do Mal” (2017). O que levanta o questionamento do motivo disso, sendo que se se conservasse o “A Criação” assim como o original (“Annabelle: The Creation”), certamente o público iria entender que a história contada era sobre como a boneca nasceu.

Continuando essa genealogia de bonecos macabros, o mais recente a se juntar ao grupo foi Brahms, ou como você deve lembrar melhor,”Boneco do Mal (2016). Esse marketing que insiste em se arriscar na mesmice não convence, onde, de novo, seria interessante tentar manter “O Garoto” (“The Boy”, no original) traduzido ao pé da letra, e aí se aplicaria melhor a premissa que o filme apresentou. No máximo até “O Boneco” seria aceitável.

Como essa recorrência será vista mais vezes, vamos encerrar esse texto repassando alguns nomes: “A Casa do Mal”(2000), “A Colheita do Mal”(2007), “Filha do Mal”(2012), “Invocação do Mal” (2013), “O Caminho do Mal” (2014), “A Possessão do Mal”(2014), “A Face do Mal”(2014), “Enviada do Mal” (2015), “A Ilha do Mal” (2017), “O Chamado do Mal” (2018) e podemos parar por aqui, ou se bobear, ao tentar combinar qualquer palavra com o “mal” pode virar nome de mais um filme.


Esse texto foi anteriormente publicado no site Sessão do Medo.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.