Amantes Eternos – ou o que fazer com todo o tempo do mundo?

Filmes essencialmente românticos costumam fazer com que várias pessoas torçam o nariz. Nada mais natural, afinal de contas, qualquer pessoal que tenha vivido um pouco sabe que mesmo eliminando os recursos fantásticos de Questão de Tempo, é muito improvável que a vida seja sempre good vibes daquele jeito. Assim sendo, Amantes Eternos traz elementos muito interessantes para um relacionamento a dois, e o melhor deles — a eternidade.

Amantes Eternos

A história que Jim Jarmusch, diretor e roteirista, traz para as telas mostra, progressivamente, que Adam (Tom Hidleston) e Eve (Tilda Swinton) são vampiros e mantêm um duradouro casamento em que eles se permitem períodos de afastamento. A primeira coisa que chama atenção nos dois, além de eles terem os nomes do casal original (Adão e Eva em português), é que ambos são seres extremamente interessantes e complementares. Característica esta explícita até em seus figurinos – ele sempre em tons escuros e ela em claros. Ele é um músico e vive numa deserta Detroit rodeado de instrumentos musicais e aparelhos de gravação analógicos. Ela vive em Tânger, no Marrocos, cercada por livros de todos os idiomas e mantém uma amizade com um vampiro singular que prefere ser chamado de Kit, mas, na verdade, é Christopher Marlowe (John Hurt), poeta e dramaturgo do período elizabetano que pode ser considerado o antagonista de William Shakespeare — ou vice-versa como prefere o personagem.

Amantes Eternos

Conhecendo bem o seu cônjuge, Eve nota que Adam estava mais triste do que de costume e decide ir ficar com ele nos EUA. De fato, o vampiro estava com caraminholas na cabeça há tempos, algo que sua esposa logo descobre, culminando num dos diálogos mais interessantes do filme. As queixas de Adam são contra os zumbis (as pessoas), que poderiam aproveitar melhor mundo em que vivem, contudo poluem e destroem tudo o que tocam inclusive a própria corrente sanguínea, tornando a alimentação dos vampiros mais dificultosa e menos segura. É  interessante notar como Adam é um personagem romântico, de maneira literária, inconformado e inadaptado ao mundo em que vive e desejoso de uma realidade idealizada. Por outro lado, Eve entende que as coisas são como são, mas que é sempre possível dançar em meio ao caos. De certa forma, ela percebe a beleza da sua eternidade e a vantagem de ver os zumbis destruírem o mundo e se eliminarem da face da Terra, mesmo que isso signifique, em derradeiras instâncias, o fim de tudo. Eve enxerga a beleza que existe além do bem e do mal e relembra Adam que, para eles, isso é possível, visto que têm todo o tempo que precisarem. Luxo a que nenhum de nós, reles mortais, jamais teremos acesso.

Amantes Eternos

Como foi dito no PontoCast sobre vampiros, o mito foi revisitado e mudado várias vezes, mas em tão poucas oportunidades os chupadores de sangue apareceram de maneira tão interessante, vivendo na noite, conhecendo a nata da literatura mundial de vários séculos, música, ciências e sorvendo a beleza do universo com o mesmo afinco que sugam o sangue de suas vítimas. O roteiro não vai de um ponto “a” ao “b” e isso pode dar uma ideia de que falta uma história, mas isso é justamente o que Eve ensina a Adam e o que eles querem que nós entendamos. A eternidade é um quadro pintado sobre dramas cotidianos.

The following two tabs change content below.