Análise | “Always” – Bon Jovi não é brega por acidente

“Este Romeu está sangrando, mas você não pode ver o sangue; são somente alguns sentimentos que um cão velho chutou.” É desta forma que começa a música “Always”, do Bon Jovi, uma obra-prima que sintetiza (com sintetizadores, inclusive) o que havia de mais brega nos anos 80 e, consequentemente, nos próprios rapazes da banda de Jon Bon Jovi. O que é importante ressaltar, contudo, que a cafonice não é acidental. “Always” é brega de propósito.

A banda, formada em 1983, contou durante bastante tempo com os mesmos membros: David Bryan nos teclados sintetizadores e no backing vocal, Tico Torres na bateria, Alec John Such no baixo, Richie Sambora na guitarra e Jon Bon Jovi nos vocais. Enquanto a saída de Alec Such não impactou tanto a produção do grupo, o adeus de Sambora calou fundo: se o Bon Jovi se tornou uma banda de rock com solos de guitarra, isso foi responsabilidade total de Richie. Jon Bon Jovi sempre esteve muito mais focado nas letras.

Claro que seu sucesso não era unânime. Das mesmas mãos que saíram “Bed of Roses” e, principalmente, “Dry County” (ambas de “Keep the Faith“, 1992) também tivemos canções de letras de qualidade discutível, como “Born to Be My Baby” e “I’ll Be There For You”. Com isso, além do “Desafio Bon Jovi”, outro traço que pode ser feito entre grande parte das músicas é o exagero dos sentimentos e o uso de figuras de linguagem bem dramáticas para expressar suas emoções.

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O que nos traz de volta a “Always”. Gostando ou desgostando da música, é louvável a forma como o primeiro verso sintetiza tudo o que há de mais importante sobre ela, e já dita qual caminho a canção vai seguir. Você já sabe se você vai se identificar ou não nas primeiras palavras.

This Romeo is bleeding | Este Romeu está sangrando

But you can’t see his blood | Mas você não pode ver seu sangue

It’s nothing but some feelings | São só alguns sentimentos

That this old dog kicked up | Que este cão velho chutou

Sim, é absurdamente piegas, mas vamos verso a verso desta primeira estrofe. “Este Romeu está sangrando” já nos informa que essa música será sobre (e para) corações partidos. A história de Romeu e Julieta – talvez a peça mais conhecida da história – é famosa exatamente por seus excessos românticos e seu fim trágico. Consequentemente, se o BonJovi-lírico do cantor se relaciona com um personagem que (spoiler!) morre no final da trama, dificilmente a história do vocalista vai ter um final feliz.

“Always” continua. Jon diz que este sangue não pode ser visto – obviamente, visto que é um sangramento metafórico -, e explica que são emoções largadas à beira da rua, na qual ele tomou uma bicuda de um cachorro idoso. Agressões caninas à parte, o que fica bem claro aqui, através do paralelo com a obra de Shakespeare e com os desdobramentos a partir daí, é que “Always” não é brega à toa.

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Cenas deste maravilhoso clipe.

A cafonice aqui tem dois objetivos simultâneos, um contextualizado e outro metalinguístico (sério, só vem comigo). Dentro do contexto, este Romeu claramente fez alguma burrada grave. Mais tarde na música, ele comprova isso, dizendo “tente entender, eu cometi erros, sou apenas um homem”, mas sua amada já está com outro puxando ela para perto e dizendo as palavras que ela precisa ouvir. Aqui, o primeiro objetivo desse drama todo é exatamente sensibilizar a mulher que ele ama de sua condição, para tentar convencê-la a voltar para ele.

O objetivo metalinguístico, por sua vez, também é bem simples: é Bon Jovi sendo Bon Jovi. Ao longo dos anos, a banda ficaria conhecida por inúmeros hits de baladas românticas. Apenas para nomear algumas, “I’ll Be There For You”, “Bed of Roses”, “I’d Die For You”, “Never Say Goodbye”, e por aí vai. Faz parte da persona do grupo – e individualmente do rapaz Bom Jovem – estes traços melodramáticos, que balança corações de fãs, mas principalmente que consegue gerar identificação em quem ouve.

E esse é o principal poder de “Always”. Estando na fossa, com todas as emoções e dores potencializadas, é fácil se identificar com alguém se comparando a um Romeu com o coração sangrando em uma chuva que o afoga (sério, a segunda estrofe diz exatamente isso). Não tem como ser mais dramático do que isso, então não há forma de calar mais fundo em amores despedaçados. Essa é a arte desta música. Sua capacidade de contar uma história consideravelmente genérica enquanto é extremamente pessoal e ligeiramente humilhante a torna um hino para aqueles que, em algum momento, não conseguiram aceitar a perda de um amor. Então ficam lá, sangrando figurativamente numa chuva hipotética, com cantos bregas de amor que durarão – é claro – para “always”.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.