Alienígenas analisam o maior dilema do universo: dublado ou legendado?

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante, as primeiras sociedades inteligentes debatiam acerca de questões filosóficas que persistiriam por eras incontáveis no universo. De Betelgeuse à Krypton, de Tatooine à Oa, de Vulcano à Magrathea. Pensadores de todo o Cosmo analisaram, estudaram e debateram um dos maiores questionamentos que afligem o imaginário coletivo até os dias de hoje: dublado ou legendado?

Em um esforço conjunto para encontrar respostas para esta esfíngica pergunta, iremos analisar pontos positivos e negativos de ambos os lados do debate com a esperança de que as futuras gerações consigam, através deste e de outros escritos, a elucidação deste terror interrogativo.

dublado ou legendado

Um estudo do IUET (Instituto Universal para o Entendimento de Terráqueos), recentemente captado pelo projeto SETI, mostrou que a relação dos brasileiros com a dublagem começa ainda na infância. Isso se deve ao expressivo número de obras televisivas infantis produzidas principalmente em língua inglesa e japonesa. Como ferramenta de acessibilidade para os humanos brasileiros não-falantes das línguas anglófona e nipófona, a dublagem se tornou o elo principal para que a população pudesse aproveitar o conteúdo estrangeiro no país.

Dentre os espécimes analisados no estudo, 1/3 considerou o uso da dublagem como um atalho preguiçoso para o acesso à informação, sob a justificativa de que a tradução em áudio ameniza ou anula os significados originais de algumas expressões. Entretanto, Pempelac Bermote, um dos pesquisadores, ao comparar as duas alternativas de apreciação (dublado ou legendado), afirmou que essa é uma declaração facilmente falseável.

Segundo o referido pesquisador, “tanto a dublagem quanto a legendagem estão sujeitas a adaptações linguísticas que interferem no significado original da obra. Alguns termos não possuem tradução direta e exata de uma língua para outra”. Como exemplo, “a frase ‘She outsmarted me’ dificilmente será traduzida com precisão em legenda ou em áudio, pois não existe expressão equivalente a ‘outsmart’ na língua portuguesa”, completou Bermote (em tradução livre do vulcano arcaico).

O mistério do “Dublado ou Legendado” também permeia debates em terras tupiniquins no terceiro planeta do Sistema Solar. É sabido, há algum tempo, que extraterrestres influenciam a dublagem no Brasil. Para preservar sua identidade terráquea, usaremos o nome “Clark” para representar um dos indivíduos que se tornou um grande nome na dublagem brasileira. Muito se deve à habilidade inata da espécie em reproduzir os sons vocais de forma que se adaptem perfeitamente aos movimentos labiais e corporais de outro ser. Uma versão aperfeiçoada do ventriloquismo.

dublado ou legendado
Retrato falado de Clark impresso em 3D.

Na pesquisa previamente citada, houve ainda aqueles que afirmaram que na dublagem se perde a expressividade original dos atores. A especialista convidada, Berna Yoda, da UOM (Universidade Ocidental Miraluka) apoia esse pensamento, mas reforça que “a localização no áudio dublado pode ser feita (…) é indicado traduzir sentidos, não expressões. Seu espaço na dublagem, ‘Clark’ galgou, pois habilidade de localização dos textos mostrou o caminho”, exemplificou Berna.

Em relação à legendagem, entretanto, as observações do grupo estudado foram bem mais amenas. Apenas 10% dos indivíduos criticaram o serviço de legendas brasileiro, um dos mais eficientes do planeta. As críticas se resumiram a erros de sincronização e traduções equivocadas. Para o PhD em Hermenêutica Defectiva, Niarlato Tepe, o número reduzido de críticas às legendas está diretamente relacionado à qualidade dos arquivos distribuídos gratuitamente na internet.

Tepe observou que a maior parte das críticas era voltada para as legendas originais dos serviços de streaming. “A baixa qualidade das legendas originais leva o consumidor a procurar alternativas melhores para a compreensão do programa que está sendo assistido. A dublagem é uma opção que nem sempre está disponível e que também sofre com a qualidade em alguns casos”.

Tepe concluiu seu posicionamento enfatizando o importante uso da legenda para a compreensão de novos termos das línguas estrangeiras. Fomos informados que o Doutor Tepe desapareceu repentinamente, sem deixar rastros. Nossa equipe não conseguiu localizá-lo para aprofundar a discussão. Até lá, nosso dilema persiste: dublado ou legendado?

Importante: para o estudo foi considerada uma amostra de 320 humanos e 100 golfinhos. Nenhum dos animais sofreu maus tratos.

Curiosidade

Em meados de 2003, uma coligação tomou o poder e saiu em protesto pelas geladas planícies de Plutão, planeta de maioria cega, em defesa de uma parcela dos consumidores do audiovisual. O grupo radical plutoniano, como ficou conhecido, defendia ferrenhamente a substituição do serviço de legendagem pela aplicação exclusiva da dublagem com audiodescrição.

O controverso movimento gerou alvoroço na comunidade solar. Em 2006, Plutão sofreu diversas sanções em virtude da mobilização e foi destituído do título de “planeta”. Apesar das medidas repressivas, os esforços do grupo refletiram positivamente na Terra. A Netflix lançou, nove anos depois, seu primeiro seriado audiodescrito, como forma de acessibilidade aos cegos terráqueos e em apoio à causa do planeta gelado. O protagonista cego, tratado como herói no enredo da série, foi a escolha dos produtores para a representatividade do movimento plutoniano.

No início de 2017, foi aberto um novo processo para redefinir a situação política de Plutão. O caso ainda está sendo analisado.

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Artigo escrito por Leandro Bezerra. Encontre-o no Twitter.

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