Alice Através do Espelho (2016)

Você ficou distante por muito tempo, Alice. Há assuntos que podem ser beneficiados por sua atenção. Amigos não podem ser negligenciados.”

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Título:Alice Através do Espelho (“Alice Through the Looking Glass)

Diretor: James Bobin

Ano: 2016

Pipocas: 4/10

Falsários de pinturas são, até certo ponto, grandes artistas; não basta olhar uma obra para poder copiá-la, é preciso ter o mínimo de habilidade para fazê-lo. Seis anos depois de “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton, James Bobin assume a sequência, emulando o estilo de seu predecessor. O problema é que a cópia de algo medíocre dificilmente será boa.

Em “Alice Através do Espelho”, reencontramos a personagem-título (interpretada por Mia Wasikowska), agora capitã do navio que pertencia a seu pai. Depois de três anos viajando o mundo, Alice retorna para Londres, apenas para descobrir que, após a perda de seu pai, sua família está basicamente falida e excluída dos círculos sociais da cidade. Durante uma tentativa de reaver o que lhe pertencia, a moça é levada por uma borboleta azul conhecida até um espelho e, ao atravessá-lo, se depara mais uma vez com o País das Maravilhas. Logo os amigos do filme anterior aparecem para lhe dizer que o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp interpretando Johnny Depp) está em apuros e que somente ela pode salvá-lo.

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Quando falamos de País das Maravilhas, temos em mente qualquer coisa que não seja o lugar-comum, mas é exatamente isso que recebemos. As peças de xadrez vivas e alguns diálogos bizarros sem charme não disfarçam o óbvio quando Alice tem que enfrentar o Tempo personificado (Sacha Baron Cohen, um dos alívios desse filme) e roubar dele a Cronosfera. Com este item, Alice poderá voltar no tempo e descobrir o que houve com a família do Chapeleiro.

Parafraseando nossa querida Bela Gil, você pode substituir “Cronosfera” por qualquer outro elemento que permita viagens no tempo, e assim você reconhecerá que já viu esse filme antes. Não precisa de muita criatividade para deduzir o filme e imaginar que só há duas conclusões possíveis: ou vamos de a) “Efeito Borboleta”, e Alice McFly destroi o futuro ou b) ela chegará à conclusão de que não pode mudar o passado. O longa se torna tão previsível que não há spoilers para esse filme.

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Não tarda para que vejamos que a “trama” do filme é só uma desculpa para que conheçamos o passado dos personagens e recebamos várias respostas para perguntas que nunca fizemos. Você que nunca quis saber o porquê da enorme cabeça da Rainha de Copas (Helena Bonham-Carter), ou o motivo pelo qual o Chapeleiro e seus amigos sempre estão a um minuto da hora do chá: parabéns, agora você sabe. Além de ser desinteressante, é um tiro que sai pela culatra, visto que o pouco fascínio exercido pelo primeiro filme vinha exatamente do mistério que cercava esses personagens absurdos. Descortine a estranheza e você matou o interesse.

O filme tenta se compensar por sua beleza. Embora bem óbvio, todo o design da produção é lindo de se ver e, embora o 3D não acrescente em nada na experiência, também não chega a incomodar. Todos os personagens de CGI (que são muitos) estão críveis, e conseguimos nos afeiçoar a eles com maior facilidade devido ao filme anterior.

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A discussão central do filme, sobre a maneira que lidamos com o tempo, consegue ser bem trabalhada, embora seja pouco sutil. Tendo perdido seu pai, Alice vê o tempo como um adversário implacável contra o qual ela sempre está lutando, enquanto sua mãe já o observa resignada após perder o marido. Ao encarar o Tempo – literalmente -, Alice passa a dá-lo um novo significado – conflito este que me lembrou como o tempo dota o que nos cerca de relevância. Relacionamentos e a dor causada pelo seu fim; nossos projetos e planos e nossos problemas; mesmo nossa própria vida é como uma frase, que se perdido o ponto final, perde o seu sentido. É o fim que dá propósito ao começo.

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Nem esta reflexão nem o deslumbre visual consegue nos fazer esquecer o que o próprio filme nos lembra todo o tempo: ele simplesmente não tem motivo para existir. Seguindo um filme medíocre, “Alice Através do Espelho” é uma sequência irrelevante e consideravelmente esquecível, de forma que é inevitável pensar que a cópia de James Bobin para o filme de Tim Burton é uma boa pintura falsificada de uma obra original fraca: retém a estética, mas perde ainda mais em conteúdo. Em suma, leve seu sobrinho para ver este filme, mas não o faça se você estiver com sono; já basta Alice sonhando com coelhos estranhos e borboletas com a voz do (saudoso) professor Snape.

***

Este texto foi feito em parceria com os nossos amigos do CinescópioTV. Para visitá-los, só clicar aqui.

Nossa resenha sobre outro filme com a mão de Tim Burton, aqui como diretor: Grandes Olhos.

Alice também fez uma participação no PontoCast #21, sobre Clássicos Que Não Gostamos.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.