Resenha | Alex Strangelove (2018) – o mundo não é tão colorido assim

Vivemos constantemente num mundo em que todas áreas são forçadas a sofrerem ou sofrem mudanças, mas muito difícil mesmo é ver as pessoas mudarem. Sabemos apontar erros, analisar problemas ao pé da letra e até debater, mas não sabemos aplicar a mesma metodologia e ousadia com nós mesmos. Rótulos sempre existiram e cada vez mais se intensificam. E se não rotulamos a nós mesmos, rotulamos o próximo e vice-versa nesse mundo carente de aceitação. Na mais nova aposta de comédia teen da Netflix do último dia 08, conhecemos “Alex Strangelove”, um filme leve, descontraído e empolgante sobre autodescoberta sexual de um garoto, e estranhamente quase sem preconceitos, num mundo que não é tão colorido assim.

alex strangelove

Título: Alex Strangelove

Diretor: Craig Jonhson

Ano: 2018

Pipocas: 6/10

Há pequenos spoilers sobre o filme neste texto.

Quando o trailer de “Alex Strangelove” foi divulgado pela Netflix, ficou difícil não especular que a gigante do streaming teria criado a sua versão de “Com Amor, Simon” pela semelhança nas temáticas. Mas conferindo a história de Alex Amorestranho, percebe-se que ambas produções têm mais coisas em comum, a julgar pela forma que abordaram a mensagem principal através de seus personagens: se eu assumir quem sou, será que o mundo gostará de mim? Mas claramente, “Com Amor, Simon” soube aproveitar melhor o seu material e ser bem mais pé no chão que “Alex Strangelove”.

Alex Truelove (Daniel Doheny) é o típico garoto exemplar da escola, como também um filho exemplar para os seus pais, e que almeja cursar a faculdade em uma das melhores universidades. Da contagiante e unida amizade entre ele e Claire (a talentosa Madeline Weinstein), surgiu a paixão e assim o casal floresceu. Porém, onde não tinha problema para Claire, para Alex, a dúvida do que fazer e como seria perder a virgindade era opressora e crescente, mas ambos estavam disposto a resolver isso da maneira mais picante e agradável possível. O que Alex não esperava é se ver questionando sua orientação sexual ao conhecer Elliot (Antonio Marziale), o garoto que ele acredita nutrir uma paixão pela sua pessoa.

Quem realmente sou? Porque o amor é tão estranho? Porque estou com tanto medo? Assim acompanhamos Alex se indagar enquanto permite que a incerteza invalide seus sentimentos: ele acredita que Elliot está apaixonado, mas também não rejeita a possibilidade de dar uma chance. Nisso, começa a tentar encontrar a sua orientação sexual afirmando que tem uma namorada: bissexual ou homosexual?

Até aí tudo bem, a comédia e a coesão estavam muito bem encaixadas dentro da trama que desenrolava, mas os deméritos começavam a surgir a medida que “Alex Strangelove” acertava em cheio com sua temática.  Desde os primeiros minutos, a película se mostrou habilidosa ao cutucar estereótipos, e muito disso se deve ao manjado grupo de amigos desajeitados que dizem ou fazem coisas escandalosas em nome do humor. O hilário amigo de Alex, Dell (Daniel Zolghadri), por exemplo, é a pessoa com quem Alex se sente confortável em se abrir, e aparentemente Dell é um exemplo de quem tem uma mente aberta, sujeita a ouvir o outro, e tende a opinar sobre tudo sem ferir nenhum lado da história. Pessoas assim existem, mas a representação soa apenas otimista quando percebemos que é difícil ouvirmos afirmações tais como a de Dell: “o mundo está mudando, hoje existem pansexuais, transexuais, estamos no século 21”; em outras palavras “estamos no século 21, como ainda pode existir o preconceito?”. Mas é exatamente o que sempre falamos quando achamos que não iremos mais nos surpreender com as atitudes das pessoas.

Apesar dos estereótipos, desde Alex, Claire e companhia,  o humor aqui é agradável e muito bem-vindo. A narrativa funciona de maneira fluida e se sustenta dentro do gênero que o filme se propõe. E por mais que os personagens sejam tão batidos em questão de desenvolvimento, e como também são utilizados dentro da trama, a química entre o elenco é de encher os olhos, proporcionando carisma facilmente com o seu público.

Alex Strangelove tem tudo para ser uma aposta receptiva com o público por acertar em cheio no quesito comédia e tom do seu longa. No entanto, ver essa coisa de “pintar o mundo que nós queremos e esperemos que seja” é o seu ponto fraco, e chega a ser desanimador perceber que as coisas não são tão fáceis de acontecer da melhor maneira e o mundo não é tão colorido como o filme quis mostrar.

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.