Nota: Enxergando além da morte de Chester Bennington

A morte de Chester Bennington abalou o mundo da música recentemente. Mas falar de morte é sempre um tabu — às vezes, em maior ou menor proporção. O fato é que esta é, sempre, uma conversa complicada, embora isso seja ligeiramente contraditório, visto que, com o perdão do jogo de palavras gasto e que provavelmente todos já ouvimos, “a morte é a única certeza na vida”. Sou da crença de que deveríamos encarar a morte com mais naturalidade e, ao mesmo tempo, também devemos deixar que ela nos abale o quanto for necessário, pois, dessa maneira, acredito que poderemos refletir sobre a vida e dar a ela uma gama de novos significados.

Perder pessoas com as quais nos importamos pode acontecer de diversas maneiras, sendo trágico, libertador, ou uma enorme experiência transformadora, mas, no geral, é algo essencialmente triste.

Mas o que pode ser dito sobre a morte de Chester Bennington que não está nos jornais?

Morte de Chester Bennington

 

Nada será capaz de consolar a família, os amigos e as demais pessoas que viam no vocalista uma figura querida. Dito isso, pensemos com carinho e empatia em algumas questões.

Acompanho música de maneira consciente desde a adolescência e, de certa forma, aprendi isso com o Linkin Park de Chester. Comprei discos, aprendi violão e guitarra, tive banda e ainda é difícil passar um dia sequer sem cantar, tocar ou escutar qualquer coisa. Com o passar do tempo, naturalmente, meu gosto musical ficou consideravelmente mais variado, e o Linkin Park começou a figurar menos na minha playlist. Porém, jamais poderia dizer que não gostei, e gosto da banda, bem como não posso negar sua importância para mim. O Linkin Park foi (perdão por outra expressão surrada de velha) uma porta de entrada para a música no geral, e a figura de Bennington berrando nos palcos foi muito marcante. Acredito que o mesmo sentimento é compartilhado por outras pessoas de idades variadas.

Além disso, o impacto da perda do artista está no fato de que Chester era jovem (passou dos 40 há apenas um ano) e o Linkin Park fez um público que, em geral, vai dessa faixa etária para menos. Quando pensamos que o primeiro álbum da banda, Hybrid Theory, saiu em 2000, levaremos em conta que a gravação, se fosse uma pessoa, nem teria alcançado a maioridade no momento em que este texto for veiculado. A partida de figuras inspiradoras é sempre algo que abate as pessoas, como foi com Bowie e com Cornell. Contudo, a música perdeu uma figura contemporânea, que havia acabado de lançar um trabalho e poderia ter produzido tantos outros ainda.

Morte de Chester Bennington

 

Outra coisa que não deixa de chamar atenção na morte de Chester Bennington é a forma como ela aconteceu e isso ter a ver, como se sabe e foi repetido exaustivamente pela mídia, com o fato de o cantor ter sofrido com abusos, depressão e o uso de drogas em determinado momento de sua vida. Tendo isso em mente, lembraremos que a maioria das músicas do Linkin Park tinham como tema principal o sofrimento e como as pessoas chegam a ele ou podem resistir-lhe — um dos singles do último disco perguntava “why is everything so heavy?“. As músicas da banda liderada por Bennington, muitas vezes, eram literalmente gritos de socorro dados pelos músicos e emprestados aos ouvintes.

Infelizmente, após anos de sofrimento, a morte de Chester Bennington se deu de uma maneira trágica no dia do aniversário de seu amigo Chris Cornell (Soundgarden, Audioslave, Temple of the Dog). O cotidiano do cenário cultural do nosso tempo nos mostra que distúrbios relacionados à autoestima, auto-imagem, depressão e suas causas são cada vez mais comuns. Isso tem se tornado tão popular que virou tema para piadas e memes e até séries de sucesso — o que, de uma forma geral, tem trazido discussões mais abertas e sérias. Contudo, é preocupante ver como nem a consciência desses males e suas causas, muito menos o sucesso na carreira, são capazes de evitar com que percamos artistas, parentes, amigos e conhecidos queridos.

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.