Álbum de Família (2013)

“-Karen! Que vergonha! Você não sabe que é errado dizer “Caubóis e Índios”? Você brincava de “Caubóis e Nativo-Americanos”. Não é, Barb?

-O que você está tomando? Quais pílulas?

-Ah, deixe-me em paz.”

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Filme: Álbum de Família (“August: Osage County”)

Ano: 2013

Diretor: John Wells

PIPOCAS: 9/10

Quando a época das indicações ao Oscar chega, a primeira pergunta que fazemos é: por qual filme a Meryl Streep será indicada esse ano? O filme para o Oscar 2014 da ex-Dama de Ferro é “Álbum de Família” (“August: Osage County”, 2013), uma ácida comédia de humor negro combinada com drama, que transporta uma peça homônima para as telonas com grande elenco e roteiro impiedoso. Da mãe autoritária ao tio estranho, todos as figuras que nos são familiares (literalmente) estão ali, e a disfuncionalidade chega ao nível de ser um personagem tão importante quanto os outros.

Acontece que, após um acontecimento inesperado, as filhas Barbara (Julia Roberts, “Espelho, Espelho Meu” – ou no bem melhor “Closer – Perto Demais”) e Karen Weston (Juliette Lewis, “Um Parto de Viagem” e “Um Drink no Inferno”) precisam voltar, com suas respectivas famílias e acompanhantes, para a casa da sua mãe Violet (Meryl Streep, que dispensa apresentações), conhecida por seu sarcasmo, acidez e hipocondria. Lá também está a irmã mais nova, Ivy (Julianne Nicholson), a única que decidiu ficar com os pais em Osage County. Com o desenrolar de suas interações entre si e com seus familiares, nenhum esqueleto ficará no armário, e ninguém sairá incólume.

A primeira ordem de grandeza são as cenas com o ensemble do elenco. A cena principal na mesa de jantar, com o elenco reunido, consegue variar a reação do público entre risadas, choque e olhos marejados em minutos. O elenco de apoio, que mistura atores já conhecidos (como Ewan McGregor, Margo Martindale e Chris Cooper) e atores em franca ascensão (Benedict Cumberbatch, Abigail Breslin e mesmo a veterana da HBO Julianne Nicholson), todos em ótima forma e em completa sintonia, de forma que o elenco não apresenta nenhum elo fraco. O fato de o roteiro ter dividido muito bem o tempo de tela de todos também é um fator sintetizador desta sinergia entre os atores.

O roteirista do filme, Tracy Letts (que também é o criador da peça homônima ganhadora do Pulitzer de 2008) transpôs a linguagem teatral com franqueza, mantendo a trama fisicamente estagnada e deixando aos atores a responsabilidade de trazer dinamismo ao enredo. A direção de John Wells (responsável pela saudosa The West Wing) também expõe que o filme é oriundo de uma peça, com longas tomadas contemplando simultaneamente todos os personagens – desta forma a absorver ao máximo suas reações, enriquecendo a película.

Ainda assim, as joias da coroa são as atuações de Meryl Streep e Julia Roberts; não à toa foram essas as duas indicações do filme ao Oscar: Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Enquanto já vemos Streep intensa desde a primeira cena, a personagem de Roberts tem um crescendo admirável à medida que a incapacidade da mãe força a filha mais velha a assumir o papel de espinha dorsal da família. Outro ponto de congruência é a evidenciação de que, apesar dos conflitos, Violet e Barbara são mais parecidas do que a última gostaria de admitir – de forma que Roberts, ao longo do filme, começa a apresentar traços de atuação de Streep.

“Álbum de Família” é exatamente o que o título (bem adaptado) anuncia: é um impressionante retrato de disfunções familiares, que pode descer como uma pílula amarga para muitos – o que provavelmente o impediu de ser indicado ao Oscar de Melhor Filme. De Breslin à Streep, ninguém está imune de ver ali retratado um familiar seu – ou a si mesmo -, sendo assim uma película de qualidade ímpar e digna de ser vista por suscitar reflexões geralmente incômodas. Acentuado por grandes atuações, é um ótimo filme no qual a arte e a vida se mesclam, tornando-se por vezes um espelho para os espectadores que – posso garantir – por essa não esperavam.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.