A Ovelha Negra (2015)

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Título: A Ovelha Negra (“Hrútar)

Diretor: Grímur Hákonarson

Ano: 2015

Pipocas: 8,5/10

O valor de se falar em verdades e conceitos absolutos é que sua mensagem transcende. Se você fala de herois e vilões, não importa se há uma guerra nas estrelas ou uma competição de canto na escola: você reconhece e se enquadra nos arquétipos – total ou parcialmente. Da mesma forma, quando um filme fala de relações familiares, não é necessário que a história se passe em seu quintal para que ela te afete e fale com você, e nem precisa que ela se vista de muita complexidade ou alegorias.

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O filme islandês “A Ovelha Negra” é dotado da magia de ser atemporal e global – e, ao mesmo tempo, muito íntimo.

O filme conta a história de Gummi (Sigurður Sigurjónsson), um criador de carneiros em um vale que vive desta atividade. Após seu carneiro perder em uma premiação para seu vizinho e irmão Kiddi (Theodór Júlíusson), Gummi vai investigar o carneiro premiado, descobrindo algo que põe em risco o futuro de todo o vale.

Se você observar bem, esta premissa tem todas as características de uma fábula clássica. Temos um conflito familiar com uma pequena vila de pano de fundo, bem como tons de “moral da história” no desenrolar da trama – e você não estaria errado nesta observação. Na verdade, a relação entre os irmãos (e suas barbas avantajadas) nos remete mesmo às histórias bíblicas, e uma dinâmica Caim/Abel é passada mesmo em olhares entre os personagens.

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Realço a questão do olhar visto a pouca quantidade de falas no filme – motivo pelo qual não pus citação no começo do texto, como normalmente fazemos. Os personagens protagonistas não se comunicam em palavras; primeiro por uma questão própria deles, como você verá no filme, e segundo porque eles se conhecem bem demais – palavras são desnecessárias.

Esse é mais um passo na direção da universalidade da história: esquecemos que o filme é falado em um idioma obscuro quando vemos tudo o que precisamos saber bem na nossa frente. Mesmo nos momentos que o filme se arrasta em seus 90 minutos (e realmente se arrasta em alguns pontos), nos sentimos atrelados aos personagens, vivendo suas vidas diárias e vendo seu estilo de vida desmoronando enquanto eles assistem, impotentes.

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Ainda assim, a relação dos irmãos rouba a cena, principalmente na segunda metade da projeção. Confrontados pelo fim de tudo que acreditavam, os irmãos precisam escolher em o quê se ancorar – se em seu ódio mútuo ou no vínculo sanguíneo que os une. Na belíssima cena final – inóspita, fria e íntima como toda a fotografia do filme -, despidos de tudo que se interpunha entre eles, Kiddi e Gummi precisam tomar essa decisão derradeira. E o resultado é de partir o coração.

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Eu havia planejado ver outro filme no dia que, por acidente, vi “A Ovelha Negra”. O ganhador do prêmio Un Certain Regard em Cannes (dado para filmes com estilo e narrativa “originais e diferentes”), e candidato da Islândia ao Oscar 2016, foi uma grata surpresa. Com uma trama simples e delicada, pode perder alguns espectadores por seu ritmo peculiar; ainda assim, aqueles que passarem por este contratempo serão presenteados com uma fábula atemporal contada em uma roupagem idílica e bela. “A Ovelha Negra” é uma história bíblica, caso esta se passasse na Islândia.

***

Este filme está em cartaz na rede CineJoia de cinemas. Viva o Joia! Viva o Cinema!

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.