A Múmia (2017) quer começar um universo, mas se esquece de ser um filme (resenha sem spoilers)

a múmia

Título: A Múmia (“The Mummy)

Diretor: Alex Kurtzman

Ano: 2017

Pipocas: 4/10

Não é preciso muito para que um blockbuster seja um sucesso. De maneira bem prática, filmes como “Transformers” e “Alice no País das Maravilhas” provam que você não precisa ser incrível – e nem mesmo “bom” – para ser bem-sucedido; você só precisa ser divertido. Embora sites como o PontoJão e tantos outros (bem como canais no YouTube de críticos e de outros que isso creem ser) considerem e tratem o cinema somente como arte, esses filmes e franquias que ultrapassam a barreira do bilhão de dólares sendo no máximo medíocre nos lembram que o fator “entretenimento” pesa muito, mesmo quando o roteiro e a arte falham. “A Múmia” também prova isso por outro caminho: não tendo história nem boa ação, mas fracassando mesmo, no fim das contas, por ser muito chato.

O roteiro nos apresenta uma premissa que resulta de um acidente entre “Indiana Jones” e “Missão: Impossível” no qual o carisma das duas franquias morreu na colisão. Aqui, Tom Cruise é Tom Cruise, como sempre, mas agora respondendo ao nome de Nick Morton, um soldado especializado em reconhecimento que lucra saqueando artefatos históricos. Após roubar um mapa de um suposto tesouro amaldiçoado de Jennifer Halsey (Annabelle Wallis), e com a ajuda de seu parceiro, Vail (Jake Johnson, o Nick de “New Girl“), Morton encontra o que se revela ser o sarcófago onde uma demoníaca princesa egípcia chamada Ahmanet (Sofia Boutella) foi aprisionada. Seguindo a libertação acidental da múmia de Ahmanet, Nick agora precisa lutar contra o tempo para blablablá.

a múmia

Você não se importa com a trama e, sinceramente, nem eu. Ao olhar o pôster, você já sabia o que esperar: um filme de aventura com bastante corrida do Tom Cruise, nomes de artefatos mágicos estranhos, cenas de ação muito legais e umas duas horas de duração das quais você sairia comentando com sua companhia “entendi pouco, mas que filme irado”. E é exatamente esse o problema: você não encontra essas coisas nesse filme.

Você tem, de fato, uma Adaga de Set – uma arma mística que até agora não entendemos se serve para trazer o deus da morte para o mundo real ou se é para matá-lo, mas dane-se -, com uma pedrinha vermelha genérica em cima para ser interessante e assim por diante. De resto, nem mesmo trazer o diretor de “Missão Impossível: Nação Secreta” para roteirizar o filme muda o fato de que o filme é oco mesmo de ação.

the mummy

Isso se dá muito por culpa de um tal “Dark Universe”, o qual consiste em uma empreitada da Universal Studios de dar nova vida para seus monstros clássicos, como Frankenstein, Drácula e Monstro da Lagoa Negra, e incluir personagens absolutamente nada a ver com isso, como o Corcunda de Notre Dame e o Fantasma da Ópera (oh céus). Quando lembramos que o estúdio detém esses direitos, fica claro que eles querem criar esse cosmos de personagens para faturar mais e melhor, mas o problema é que esse propósito pesa demais em “A Múmia”, fazendo com que o filme vire uma gigantesca página da Wikipedia sobre o projeto do estúdio.

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Até a logo parece algo saído de Doctor Who, só que no mau sentido.

A história de “A Múmia”, já fraca e tênue, é colocada de lado para um segundo ato que se dá praticamente inteiro dentro de um laboratório para explicar como os filmes se conectarão. Usando a figura do Dr. Henry (Russel Crowe) como elo entre todos os longas da franquia, a trama se esquece de que tinha que existir independentemente desse universo compartilhado, e, lá para o meio do filme, não lembramos mais o que devia estar acontecendo – e, caso lembremos, simplesmente não nos importamos mais.

O último ato traz um conflito fabricado sem peso nenhum, já que nem entendemos o que está em jogo ali: não sabemos quem pode matar, quem pode morrer e o que isso significa para o que restou da história. Mais triste do que isso é o fato de que o pouco de roteiro que resta tem tantos furos que seria melhor se ele tivesse desistido com o resto do filme. O mais claro dele se dá na própria premissa: assim como em “Esquadrão Suicida“, temos uma pessoa especialista em relíquias, que vive delas, simplesmente dando um tiro em algo de cinco mil anos sem dar a mínima para o que vai acontecer a seguir. Em suma, são personagens burros porque o roteiro precisa que eles sejam.

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Queria o destino – e eu, e todo mundo – que as únicas semelhanças entre “A Múmia” e “Esquadrão Suicida” fossem seus arqueólogos incompetentes e sua vilã bruxa antiga tatuada-para-mostrar-que-é-má que cria vassalos malignos com beijos. Embora não seja tão ruim quanto os vilões suicidas que nos faziam querer estar mortos durante a sessão, “A Múmia” chega bem perto de ser tão ruim quanto, com um roteiro tão preocupado em criar uma franquia que se esquece de ser um filme no processo. Compartilhando somente o título com o filme de 1999, com Brendan Fraser, “A Múmia” inicia uma franquia que não sabemos se queremos ver com uma personagem que deveria ter permanecido enterrada.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.