A Morte Convida Para Dançar (1980): o menino slasher aprende a matar

Nenhum gênero nasce pronto. Todos passam por um processo de teste e adaptação, vendo a o que o público responde e o que funciona melhor com a audiência. Assim, toda a estranheza de “A Morte Convida Para Dançar”, de 1980, é entendível por ele se situar no meio do caminho entre duas décadas bem diferentes, com estilos de terror bem variados, o que não muda o fato de ele ser um filme tristemente chato.

Título: A Morte Convida Para Dançar (“Prom Night“)

Diretor: Paul Lynch

Ano: 2017

Pipocas: 5/10

“A Morte Convida Para Dançar” funciona muito mais como uma ponte entre as décadas de 70 e 80 do que funciona como filme. Na trama, um louco homicida foge da cadeia, e não tarda para que assassinatos tornem a acontecer na pequena cidade de Ninguém-se-Importa, Massachussets. Isso acontece próximo à formatura do colegial de amigos que, apesar de populares, guardam um segredo terrível sobre o que eles fizeram em um verão passado.

Se você sente que você já viu ao menos parte dessa história antes, você está certo, embora isso não seja um demérito do filme. Estamos saindo da década de 70, marcada principalmente pela simplicidade psicótica de “O Massacre da Serra Elétrica” e “Halloween”: em meio aos horrores do Vietnã e ainda reverberando os crimes da Família Manson e do infame serial killer Ted Bundy, não havia nada mais aterrorizante no mundo do que o ser humano. Com o tempo, entretanto, a sociedade tudo esquece, e pessoas não eram mais suficientes para assustar alguém. É nessa construção, do terror dos anos 80, que surgem as clássicas figuras de Freddy Krueger, Jason Vorhees e Chucky, dentre outros.

A Morte Convida Para Dançar
Da esquerda para a direita: bichos ruins.

“A Morte Convida Para Dançar” se coloca no meio do caminho. Ao mesmo tempo que usa o elemento do louco homicida fugindo do hospício – trama obviamente chupinhada de “Halloween”, que inclusive também é protagonizado pela scream queen Jamie Lee Curtis -, o filme também tem a maturidade de reconhecer que essa trama já foi usada. Assim, decide usar a expectativa do assassino fugitivo como ferramenta para construir um plot twist bem miserável.

Ainda reconhecendo sua herança dos anos 70, aqui nosso slasher faz com que seu serial killer seja prático. Se Leatherface usava a serra elétrica que tinha à mão para tocar o terror, o assassino sem nome de “A Morte Convida Para Dançar” usa um gorro genérico (purpurinado. Sério.) para cobrir seu rosto e mata suas vítimas com o que estiver ao alcance; embora cacos de vidro sejam a arma (idiota) de preferência, ele não se furta de usar machados ou o que for mais prático para dar fim na sua lista de gente que tem que morrer.

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Matador sem ser vulgar.

E é assim que o filme ensaia um amadurecimento. Ele é pioneiro por reconhecer de maneira bem clara os elementos que futuramente se tornariam clássicos no slasher – desde as pessoas que cometeram um grave erro no passado que agora volta para assombrá-las até a incompetência de todas as vítimas em se defender de forma óbvia. No entanto, o filme não sabe o que fazer com isso. É como uma criança que finalmente percebe a existência de uma tomada e resolve enfiar o dedo para ver o que acontece.

Reconhecer os pontos que funcionaram instintivamente em “Halloween” de maneira racional aqui não é o suficiente, e nem a adição de Jamie Lee Curtis, sem inspiração, como protagonista e Leslie Nielsen (?!) como seu pai ajuda a esconder o fato de que o filme não sabe se abraça a simplicidade crua e maníaca dos anos 70 ou se decide ser complexo e surpreendente – modernoso e moderninho – para o público que está sendo descoberto nos anos 80.

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O resultado é um filme fraco. Primeiro que nesse chove-não-molha o filme passa mais de uma hora sem ter nenhuma morte – o que não seria um problema se ele não fosse um slasher. Depois de toda a espera, quando as mortes de fato começam a ocorrer quase no final do filme, “A Morte Convida Para Dançar” decide dar um breve intervalo em ser um filme de terror e se dedica a um número musical disco, com direito a competição de dança – no melhor estilo “Os Embalos de Sábado à Noite” e “Grease“, sucessos absolutos meros dois anos antes.

Isso não seria um problema se, de novo, “A Morte Convida Para Dançar” não fosse um raio de um filme de terror.

A Morte Convida Para Dançar
Bem feito, não? Não.

Esses ainda não são os piores pontos do filme, que resolve testar qualquer suspensão de descrença para forçar um suspense que simplesmente não existe. Desde tentar nos convencer de que o assassino pode ser uma mulher depois de claramente mostrar a sombra de um homem até mostrar um vestiário feminino que tem uma saída destrancada para o estacionamento, passando por uma cena de prólogo ridícula que deveria embasar toda a história mas mal consegue fazer sentido em si própria, o filme não se sustenta na sua indecisão sobre o que quer ser.

Leslie Nielsen confortável com as escolhas de sua carreira.

Julgar “A Morte Convida Para Dançar” como se avalia outros filmes slasher que vieram depois ou mesmo antes é injusto; sobre ele pesa o fardo de ser uma transição, o que nunca é fácil e sempre envolve erros. Ainda assim, mesmo descontando o peso do pioneirismo, o longa tem furos de roteiro bizarros que poderiam ser ignorados se a história não fosse tão desinteressante. Só é possível aproveitá-lo de fato como um filme interessante para ver o menino slasher aprendendo a andar e matar, porque, de resto, o único medo que realmente sentimos é de que o filme nunca acabe.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.