Resenha | A Menina que Roubava Livros (2005) – brutalidade, beleza e uma ladra

Markus Zusak, autor da obra, disse que a ideia de um ladrão de livros parecia ótima para o período da II Guerra Mundial, pois era uma época em que as palavras tinham um valor muito grande. E, muito subjetivamente, foi sobre esse preceito que a metáfora do livro teve vez. “A Menina que Roubava Livros” é uma obra que pode gerar certa estranheza nos leitores mais “xiitas” por se tratar de uma leitura simples. Porém, se lido da maneira correta, pode mostrar surpresas, além de algumas interpretações não tão agradáveis e até mesmo perturbadoras, ao contrário do que a categoria “literatura de entretenimento” possa nos sugerir.

 

Título: A Menina que Roubava Livros (The Book Thief)

Autor: Markus Zusak

Tradutora: Vera Ribeiro

Editora: Íntrinseca

Ano: 2005

O fato de considerar a obra como entretenimento dá-se única e exclusivamente pelo uso de uma linguagem moderna e bem simples, além de bastante adocicada. Inclusive, é importante notar a preocupação da tradutora, Vera Ribeiro, em usar a colocação pronominal brasileira moderna (onde a segunda e a terceira pessoa confundem seus pronomes possessivos e oblíquos). Contudo, há vários pontos que descaracterizam essa “facilidade” toda de absorção e configuram aspectos muito interessantes sobre o livro, sobretudo na mensagem por trás da estória.

Um desses principais pontos é a quantidade de núcleos de personagens, e como eles estão interligados, seja por laços afetivos, ou pela tão temida guerra. Outro é o narrador… ou melhor, narradora. Zusak decidiu pôr a Morte como narradora e isso dá uma perspectiva totalmente diferente sobre a forma como a história é contada. Talvez essa característica aponte algum tipo de conexão de Zusak com o clássico Edgar Allan Poe, pois quem conhece a prosa de Poe sabe que, para o autor, ninguém escapa da morte (em exemplo máximo temos  “O Poço e o Pêndulo” (The Pit and the Pendulum), onde o personagem escapa de todos os males do poço, mas, de qualquer maneira, é fadado a definhar lá dentro).

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Mas embora essa relação possa realmente existir, a forma dos dois autores apresentarem a morte é bastante distinta. Poe a subjetivou totalmente, tornando ela o tema mais recorrente em seus contos, mas nada tão explícito como fazer dela a narradora de suas histórias, por exemplo. O mais próximo que chegou disso foi em A Máscara da Morte Rubra” (The Mask of the Red Death), ainda assim, é tudo muito subjetivo e sempre fica alguma dúvida em relação à participação da morte na história.

Poe também mostra a morte como um ser silencioso e brutal. Acredito que para Poe a morte era muito mais um estágio da vida do que um personagem em potencial. Zusak, de sua vez, deixa claro logo nas primeiras linhas que é ela quem vai contar as histórias. Além disso, a Morte de “A Menina que Roubava Livros” participa ativamente da história, inclusive, dando sua opinião sobre os fatos que vão se encarrilhando. Para tal, ela se mostra extremamente articulada e flertando o tempo todo com uma linguagem poética, cheia de metáforas e comparações de estética singular e humor ácido. Talvez o único ponto congruente entre as duas mortes (a do Poe e a do Zusak) é que ela é brutal e que ninguém a escapa. Sim, em “A Menina que Roubava Livros”, mesmo com a água e o açúcar de todas as palavras da Morte, ela jamais se nega a fazer o trabalho dela (e como ela trabalhou enquanto Hitler esteve no poder).

O livro começa a partir do momento em que Liesel Meminger, a futura roubadora de livros, se vê obrigada a morar com uma família estranha, por motivos que ela mesma ainda não entende. E nessa casa, na rua Molching, toda a trama se desenvolve. Como são muitos núcleos vou subdividi-los para melhor analisá-los. Serão quatro divisões, basicamente: família, Ilsa Hermann, habitantes de Molching e personagens passageiros.

Família: Liesel, ao longo do livro, passa por duas famílias. A família normal que, embora tragicamente destruída, fica meio apagada. E sua família adotiva. Rosa e Hans Huberman são os pais adotivos, além deles existem dois irmãos adotivos que ficam bastante tempo “sumidos” pelo envolvimento deles na guerra. Em suma, Hans é um fracassado sobrevivente da primeira guerra mundial que virou pintor de paredes. Tocava acordeão, fumava e era apaixonante. Foi um pai sobre todas as coisas e isso se desenrola no decorrer do livro. Talvez o maior erro de Hans tenha sido escolher ser piedoso umas duas ou três vezes. Rosa, por sua vez, é uma doce megera. Sem modos, sem tato, mas com uma sensibilidade tão grande que machuca. E foi nesse núcleo familiar que Liesel cresceu. No início ela era totalmente arredia com a família, mas até o fim do livro ela se mostra completamente apaixonada.

Ilsa Hermann: essa personagem é tão importante para o desenrolar da história e para o exercício metalingüístico que existe no livro (pois Liesel começa a escrever um livro) que ganha uma subdivisão exclusiva. Ilsa é a mulher do prefeito e em sua casa havia uma biblioteca gigante. Liesel já havia roubado livros e gostava do prazer que eles proporcionavam. Rosa lava as roupas de Ilsa, Liesel as entregava e buscava. Não precisa ser um gênio para adivinhar o resto. Ilsa é um personagem muito enigmático. Ela passa o livro quase todo praticamente sem pronunciar uma palavra. Suas ações restringem-se a abrir e fechar a porta (ou a janela, posteriormente ao tempo de racionamento, quando os serviços da lavadeira seriam dispensados) para Liesel entrar e desfrutar dos livros quando ela vinha trazer e buscar a roupa que Rosa lavava. Ilsa, direta ou indiretamente, é responsável pela vontade de ler e escrever de Liesel, e isso fez toda a diferença na vida da personagem.

Habitantes de Molching: o lugar em que Liesel viveu a infância influencou acintosamente na maneira como ela via as coisas, bem como as pessoas que lá vivem: a nazi Diller da loja, Pfiffikus, os meninos do futebol, Frau Hotazpfel, os Steiner. Importante ressaltar que dentre os Steiner está um personagem muito especial, o jovem Rudy Steiner. Ele vivia com Liesel uma amizade recompensadora e ingrata ao mesmo tempo, pois Liesel era amiga para todas as horas, mas nunca quisera lhe recompensar com seu tão sonhado beijo. Rudy foi certamente o melhor amigo da protagonista, um personagem com várias características marcantes e um fim trágico.

Personagens passageiros: por fim, houve alguns personagens que não fizeram parte da história toda como o filho de Frau Holtazpfel e os companheiros de Hans no exército. Mas um personagem é extremamente importante para esse núcleo: Max Vandenburg. O primeiro amor de Liesel. Max é um judeu que resolveu se refugiar de Hitler na casa de Hans Huberman (graças a um favor que o pai de Max fizera a Hansy ainda na primeira grande guerra). Max é um personagem intrincado pela situação em que se meteu (passa boa parte da sua estadia no porão, salvo as vezes em que fica doente), em compensação traz um romantismo muito grande e puro à história. É interessante vê-lo sob a perspectiva de um refugiado no campo do inimigo. Um judeu no meio de alemães durante a segunda guerra gera várias cenas bastante improváveis. Assim como o fim de tantos outros personagens, o de Max também é trágico.

a menina que roubava livros

O que se pode tirar de tantos núcleos e tantas histórias trágicas, é a grande intenção do livro: fazer um paralelo entre beleza e brutalidade. Seja pela tristeza de crianças roubando porque existe um racionamento de comida durante o regime de guerra e vendo a beleza de comer uma bela fruta; seja pela poesia que há em ver um judeu lutando imaginariamente com Hitler, mesmo que alucinado pela fome e pelo estado de clausura; seja a beleza e a brutalidade que existe na cena em que uma menina pobre, que escreve a própria história num livro no porão de casa e por causa disso fica órfã de pai e mãe adotivos. Os personagens desse livro têm expressões vagas, são feito papelão, e mesmo assim rendem cenas brutalmente belas. É interessante perceber como a linha tênue entre esses dois extremos foi traçada durante todo o livro, culminando num final que explica a coisa toda deixando tudo em aberto. Definitivamente, este não é um livro que transforma uma vida, mas causa certo desconforto mental, além de render boas horas de diversão.

 


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.