A Hora do Arrepio (2001): é terror acima da média

Contém spoilers sobre a série “A Hora do Arrepio” nesse texto, mas continue lendo.

“Castelo Ra-ti-bum”, “Clube do Terror”, “Coragem: O Cão Covarde“: talvez, esses sejam alguns exemplos de programas e séries que fizeram parte das nossas infâncias, mas diferente da sensação que era passada ao assistir “Scooby-Doo” e ver a sua turma resolver um mistério, a tendência era sentir medo. E não muito distante disso, temos as obras de R.L. Stine. Você pode não o conhecer pelo nome, mas deve se lembrar de “Goosebumps”, a famosa série 1995 baseada nos seus livros. Tamanho sucesso, ainda pode ser visto na recente série “The Hauting Hour: The Series” – criada em 2010 pelo próprio autor e encerrada em 2014 -, como também, no filme “Goosebumps: Monstros e Arrepios”, de 2015 – que já tem uma sequência garantida para o ano que vem. É nessa esteira que “A Hora do Arrepio” vem.

Com base numa obra por RL Stine – autor descrito como o Stephen King da literatura infantil e adolescente – em mais uma de suas adaptações, “A Hora do Arrepio” (The Nightmare Room, de 2001) é baseada na coleção de livros homônimos. Num formato de antologia, a série pode ser confundida com uma história estilo Sessão da Tarde no seu primeiro episódio, “Não Esqueçam de Mim”. Estrelado por Amanda Bynes (do filme “Ela é o Cara”), somos apresentados à sua personagem, Danielle Warner que, cansada das brincadeiras irritantes do seu irmão Peter Warner (Daniel Hansen, de “A Família do Futuro”), conta com ajuda do seu amigo Chris (J. Evan Bonifant) para dar um pequeno susto no garoto: em um ensaio para o Show de Talentos da escola, Danielle decide fazer uma sessão de hipnose, na tentativa de que o seu irmão tenha medo e deixe ser tão insuportável.

Crentes de que Peter não aprendeu lição alguma, não ligam se o garoto aparenta estar sempre cansado ou quando insiste que deveria ficar no porão sem motivo aparente. Depois, Peter começa a afirmar não saber os significados das coisas, como mexer num controle remeto de um videogame, por exemplo. Com esse comportamento cada vez mais constante, Danielle passa a acreditar no irmão e achar que isso foi culpa da sessão de hipnose, até descobrir, da maneira mais genérica possível, que a casa onde moram é chamada “A Casa do Esquecimento”, onde de alguma forma as crianças de lá esquecem quem são, até serem esquecidas por sua família e desaparecem pelas rachaduras do chão do porão. Apesar da ideia interessante, por conta da sua abordagem e desfecho “Não Esqueçam de Mim” não ser consegue ser levado a sério.

“A Hora do Arrepio” – episódio 1.

Mas é a partir do seu segundo episódio, intitulado “Tenha Medo do Que Você Deseja” é que o terror se instaura e “A Hora do Arrepio” mostra a que veio. Dylan Pierce (Shia LaBeouf, do filme “Transformers”) está contente porque está mudando para o quarto da sua irmã mais velha, e aproveita para se livrar de coisas antigas, principalmente os seus brinquedos, já que quer superar essa fase. “Você quer brincar comigo? Você é meu melhor amigo, para sempre. Eu sou o Buddy, o seu melhor amigo. Eu gosto de brincar…”: são essas repetidas frases que Dylan passa a ouvir nos corredores de seu colégio por um pequeno garoto que insiste na suposta amizade, até descobrir que o tal Buddy (interpretado pelos gêmeos Dylan e Cole Sprouse) se trata de seu antigo boneco e que aparentemente não aceitou ser descartado e vai fazer o possível para manter o vínculo com o seu dono.

Antes de qualquer coisa, o Buddy, com suas roupas, lembra muito o brinquedo assassino, Chucky – só que nesse caso, o Buddy é mais amigável. Depois, só de colocar o personagem numa situação em que se vê perseguido por um “brinquedo” é perturbador. É sempre usando das questões em que seus personagens estão envolvidos que “A Hora do Arrepio” consegue cativar o telespectador, enquanto mescla terror e fantasia, podendo ser instigante, divertido e assustador na medida certa.

A hora do arrepio

O episódio 4, “Rede Emaranhada”, é um ponto em que isto funciona. Quem nunca mentiu para se livrar de algo ou até mesmo para omitir resultados desastrosos? Para Josh Ryan (Justin Berfield) não há nenhum problema em inventar uma mentira absurda, como quando quebra um objeto importante em casa ou quando tira uma nota baixa na prova – não sabendo que uma hora teria que lidar com os problemas de maneira diferente. A consequência foi ver as suas mentiras passarem ser a sua verdade.

“A Hora do Arrepio” – episódios 2, 4 e 10, respectivamente.

Diante desses aspectos que pouco a pouco a série prova que não é por contar com talento diversos de crianças e adolescentes – embora tenha faltado mais protagonismo feminino, ainda que algumas mulheres tenham roubado a cena – que o seu conteúdo é voltado para tal; “A Hora do Arrepio” nem de longe é recomendado para o público infantil. A série, inclusive, realmente aposta num terror acima da média – o episódio 10, “Querido diário, morri”, é outro acerto e provavelmente serviu como roteiro de uma das “Lendas Urbanas do Domingo Legal” – e as reflexões moldadas nas quais raramente é dado um final feliz para os personagens se fizeram presentes para garantir a plenitude de suas histórias. Mais do que isso, é como o gênero é usado para passar suas mensagens seja ao falar sobre a mentira, ou sobre as pessoas nem sempre as pessoas serem o que aparentam ser, ou que ninguém é tão bom que não tenha um mal dentro de si – tudo isso com a ajuda da narrativa de James Avery, como a voz de R.L Stine.

R.L. Stine

Quando sentimos medo? Talvez, a sua resposta seja um pouco óbvia e meio boba, como por exemplo, ouvir um barulho esquisito quando está sozinho em casa, ou talvez esteja atrelado a se afogar. Pode estar relacionado a lugares altos, escuros, pequenos, e por aí vai. E a razão nos vários questionamentos que surgem sobre o porquê gostamos tanto de uma história de terror talvez seja porque é o momento em que nos sentimos corajosos, até mesmo ao gritarmos juntos com o personagem burro. Seja como for, uma coisa R.L. Stine avisa: “não durma, ou ficará para sempre preso em… A Hora do Arrepio”.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.