Resenha | A Forma da Água (2017) – a obra de arte dos desajustados

Se as pessoas encarassem tudo o que fazem, tudo o que produzem, como uma possível obra de arte, o mundo seria um lugar mais bonito. Talvez não um lugar melhor, mas certamente mais fantástico. “A Forma da Água” é um filme fantástico.

Este texto contém alguns spoilers.

a forma da água

Título: A Forma da Água (The Shape of Water)

Diretor: Guillermo Del Toro

Ano: 2017

Pipocas: 10/10

Os filmes de Guillermo Del Toro têm uma competência identitária que sempre se destaca bastante. Algo parecido acontece com outros grandes diretores: Christopher Nolan joga várias amarras de tensão na história e o espectador fica preso nos diversos níveis de resolução da trama; George Miller, principalmente em “Mad Max: Estrada da Fúria”, consegue transformar a tela em um ambiente árido e infértil, tão seco que uma gota de água que apareça em cena é uma recompensa valiosa para quem está assistindo.

Del Toro vai na contramão de Miller e sempre apresenta um mundo úmido, chuvoso, cheio de poças, vapores, paredes infiltradas, cabelos molhados e roupas encharcadas. Isso ilustra a preferência do diretor por ambientes soturnos e/ou fechados, que valorizam a estética tipicamente abissal que ele adota neste filme.

“A Forma da Água” se passa em meados da década de 60, na segunda metade do longo período de tensões da Guerra Fria. O filme foi premiado com o Globo de Ouro e indicado ao Oscar em 2018 no quesito “Direção”. Essa categoria avalia o conjunto formado pelos aspectos técnicos e artísticos que compõem o filme. É exatamente neste ponto que a sutileza da ambientação salta aos olhos. A temporalidade do filme não é definida por um letreiro no rodapé ou narrador de fundo. São elementos como vestimentas, referências históricas e indicações visuais, que gradativamente levam o espectador à época em que o filme se situa.

A trama está diretamente ligada ao período conturbado de tensão entre americanos e soviéticos. Quando o serviço secreto americano encontra uma criatura marinha anfíbia adorada pelos povos nativos da América do Sul como uma divindade (considerando que a população nativa sul-americana foi gentilmente catapultada para o interior do continente por motivos de “colonização”, a partir do século XVI, a criatura deveria ser fluvial – mas, tudo bem), Richard Strickland (Michael Shannon), um oficial de alto escalão, tenta adestrá-la da maneira mais inteligente possível: com um cassetete elétrico.

O conflito se inicia quando Elisa (Sally Hawkins), uma faxineira muda, consegue se comunicar com a criatura e por ela se apaixona. Ao tomar conhecimento da iminente vivissecção do ser marinho, Elisa põe em prática um plano desesperado para salvá-lo e conta com a ajuda do Dr. Robert Hofstetler (Michael Stuhlbarg), um cientista russo infiltrado no projeto secreto americano.

Um subtexto valiosíssimo da história é a maneira como sociedade enxerga os “desajustados”. Surdos, mudos, cegos, aleijados, são sempre definidos por aquilo que os falta. De forma semelhante (com óbvias ressalvas), são estereotipados os sujeitos que não se enquadram na “ordem social”, em “A Forma da Água” representados por Giles (Richard Jenkins), que, após revelar a sua sexualidade, lida com situações adversas.

“Uma faxineira muda” nunca pode ser “uma faxineira” simplesmente. Esse é o motivo pelo qual Elisa se apaixona pela criatura. Uma vez que a comunicação entre eles se dá exclusivamente por gestos e sinais, Elisa não é vista como “incompleta” nem é lembrada a todo momento da “imperfeição” que a define perante os outros.

“A Forma da Água” me causou uma sensação de familiaridade muito singular. Depois de assistir ao filme, soube da acusação de plágio na qual a obra de Del Toro estava envolvida. A história teria sido baseada na peça “Let me hear you whisper” de Paul Zindel. A questão é que eu nunca tive contato com essa peça, então me resta acreditar que a sensação não passou de um erro na matrix, um déjà-vu. Talvez, porém, eu possa justificar esse sentimento pela semelhança da criatura de “A Forma da Água” com o Abe Sapien de “Hellboy” (2004) – ambos interpretados pelo mesmo Doug Jones -, ou pelo meu interesse infantil em todo o conteúdo que envolva guerras mundiais e suas consequências.

Boas obras sempre transmitem alguma mensagem. Neste filme, Guillermo Del Toro começa a construir essa mensagem desde o título, pois salta do senso comum para o subjetivo num estalar de pensamentos. Todos sabem que a forma da água é definida pelo recipiente que a comporta, portanto, qualquer forma é a forma da água. Às vezes somos o recipiente, outras vezes, o líquido. A forma da água pode ser tão indistinta e confusa quanto os sentimentos de uma pessoa pela outra. A forma da água pode ser tão rígida e regrada quanto os deveres de um soldado. A forma da água pode ser uma gota de chuva, ou da lágrima que escorre pelo rosto emocionado de alguém que testemunha uma bela obra de arte.

 


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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.