A Colina Escarlate (2015)

“De onde eu venho, os fantasmas são levados a sério.”

065194.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxTítulo: A Colina Escarlate (“Crimson Peak”)

Ano: 2015

Diretor: Guillermo Del Toro

Pipocas: 8,5/10

A arte de causar medo é muito complexa, perdendo somente para a arte de fazer rir. O medo é algo íntimo e muito sensível a passagem do tempo, o que faz com que o medo seja como a mentira: você não pode enganar muitas pessoas por muito tempo. Embora Hollywood tenha percebido essa dificuldade de causar medo e desistido da empreitada, se contentando a dar sustos, alguns diretores conquistaram liberdade criativa e, vez ou outra, desafiam o lugar-comum. E é esse o caso, amigos: puxem sua cadeira, cuidado com a neve vermelha, e sejam bem vindos à Colina Escarlate.

O filme conta a história de Edith Cushing (Mia Wasikowska, de “Amantes Eternos” e do “Alice” do Tim Burton), uma jovem que ambiciona ser escritora com tendências ao horror; suas histórias normalmente envolvem fantasmas, que são “metáforas para o passado”. Ela vive sua vida tranquilamente na companhia de seu pai, até que Thomas Sharpe (Tom Hiddleston, queridos, também de “Amantes Eternos”), um inventor forasteiro que busca financiamento para suas invenções e sua irmã, Lucille (Jessica Chastain, “A Hora Mais Escura”). Sharpe conquista o coração da jovem Edith, e sua história de amor os levará à colina do título e a atos impensados por parte de ambos.

maxresdefault4É complicado fazer este resumo sem entregar à trama. Del Toro se volta à fantasia de horror – subgênero que o lançou ao estrelato com seu “O Labirinto do Fauno”, de 2006 – para trazer uma história que consegue ser simples e imprevisível ao mesmo tempo. Desde os primeiros minutos de exibição já podemos ter uma boa ideia (acertada) de para onde vamos com aquela trama. Ainda assim, os detalhes enriquecem o filme e tornam impossível adivinhá-lo por completo.

E uma vez nessa Colina Escarlate, a história rica não é o que mais chama atenção: a belíssima linguagem visual adotada por Del Toro rouba a cena diversas vezes. Usando alto contraste e fazendo quase todo o filme em tons de verde, azul e vermelho, a fotografia adotada pelo cineasta realça o tom fantasioso e nos afasta da história, enquanto os closes e os takes viajantes, em ângulos impossíveis, nos deixa colados aos seus personagens. É um movimento de afasta-aproxima que dança com o espectador – uma vez literalmente, inclusive.

P1070320O longa é uma aula de como aliar a narrativa à linguagem audiovisual. Buscando criar um efeito onírico, de pesadelo, Del Toro cria em sua história uma casa mais fria por dentro do que por fora, com paredes que “sangram” e neve que cai pelo teto quebrado, e o resultado é incrível. O diretor obviamente buscava criar seu próprio conto de fadas doentio; diversos enquadramentos nos fazem lembrar daquelas páginas emolduradas em livros medievais – e é sublime. Além disso, Del Toro realça características de seus personagens – e das ótimas atuações do elenco principal – através de um jogo de luz e sombra constantes. A pura Edith sempre parece ter uma luz dourada sobre si, enquanto os irmãos Sharpe sempre têm seus rostos mergulhados em sombra.

la-et-mn-crimson-peak-trailer-guillermo-del-toro-haunted-housewarming-20150513Antes de passar à falha do filme, dois pontos merecem ser realçados. O primeiro é o fato de que Edith Cushing é uma avatar de Del Toro; a escritora que escreve sobre fantasmas para exorcizar seu próprio passado é específica demais para ser artificial, além de reverberar com criações anteriores do direitor. Isto torna o resto do filme mais interessante, como se estivéssemos vendo uma noite de sono perturbado de Del Toro.

3042494-inline-i-2-del-toro-you-love-is-back-in-crimson-peak-and-jessica-chastainO segundo ponto digno de nota é como mais uma vez precisamos ser lançados no passado para voltarmos a sentir medo com coisas simples. Aqui, a trama se passa no início do século XX (uma carta está datada de 1901, se não me engano), e a ausência de tecnologia alimenta a raiz de todos os medos: a solidão. O isolamento dos personagens é uma premissa indispensável para as sensações que Del Toro constroi a partir daí. Esta ferramenta de transporte ao passado para poder construir o horror também foi usada em outro filme recente muito elogiado do gênero, “Invocação do Mal” (2013).

O filme peca em ritmo, tendo uma quebra muito grande entre o primeiro e o segundo ato. É compreensível que Del Toro quisesse que conhecêssemos bem seus personagens para nos relacionarmos melhor com os horrores que viveriam, mas os dois últimos atos são tão intensos e interessantes que lançam uma sombra desconfortável sobre o ato que se passa longe da colina do título.

ksmmpvmglif2dsq2z8v9Saí do cinema refletindo sobre a diferença entre “terror” e “horror” – não necessariamente na semântica, mas na prática. “A Colina Escarlate” nos entrega poucos sustos, mas sua atmosfera e diversas cenas – muitas delas pinturas feitas com esmero por Guillermo Del Toro – nos transportam para uma dimensão de horror verdadeiro. Você pode não saltar na cadeira, mas mesmo os mais fortes se verão de queixo caído com a surpreendente brutalidade idílica de algumas cenas.

“A Colina Escarlate” é uma nova fábula de época para os tempos modernos que não permite que saiamos da mesma forma que entramos; ao menos nossos sapatos estarão sujos de vermelho.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.