A Chegada – Linguagem, Realidade, Tempo e Salvação

O texto a seguir não é uma resenha para o filme A Chegada, mas uma análise sobre os temas que ele aborda. Portanto, as linhas a seguir contêm spoilers. Para uma resenha sem spoilers leia aqui

A chegada

O novo filme de Denis Villeneuve se tornou instantaneamente cultuado, fazendo com que muitas pessoas apontassem para o diretor como um dos melhores da atualidade e também demonstrassem suas frustrações nas redes sociais (vulgo xingar muito no Twitter) por Amy Adams, atriz protagonista, não ter sido indicada ao Oscar. A verdade é que, para a premiação, acho difícil A Chegada levar alguma coisa por uma questão genérica, mas a questão aqui não é essa.

Há alguns pontos principais que permeiam o filme sobre os quais gostaria de dizer uma ou duas coisinhas. LinguagemTempoRealidade, são conceitos que, de tão corriqueiros, acabam recebendo pouca análise em nossas vidas. Porém, em A Chegada, essa tríade é tão importante que faz com que nós tenhamos de repensar a forma como vemos o mundo. Assim sendo, chega desta introdução, e vamos ao texto!

A chegada

Linguagem

Enquanto a Drª Banks diria que as sociedades se desenvolvem através da linguagem, seu companheiro, Dr. Donnelly diria que, na verdade, isso se dá através da ciência. De toda forma, não é nossa função encontrar um meio termo ou um responsável para o desenvolvimento dos seres humanos. Contudo, é impossível imaginar um mundo que não passe (ou seja passado) pela da linguagem — a ciência está inclusa nisso. De maneira simplificada, podemos dizer que a vida é feita de movimentos e pausas: os fatos. Porém, se não há ninguém para narrar um acontecimento, como saber que ele aconteceu?

A Chegada

Não importa se estamos falando de fatos corriqueiros, como uma maçã que cai de um pé de árvore; de fatos fictícios, como as incríveis viagens dos Bolseiros pela Terra Média; ou surreais, como os atentados terroristas. Se ninguém narra um fato, é como se ele não tivesse acontecido. Assim sendo, é impossível pensar num mundo que não aconteça dentro e através da linguagem. Foi a partir dessa compreensão que, provavelmente, chegou-se a conclusão de que seria interessante que uma linguista fosse o personagem principal dessa história, e o cientista fosse Jeremy Renner.

E já que a vida é completamente traspassada pela linguagem, precisamos ir para o próximo ponto.

Realidade

Ao contrário do que muitos pensam, realidade não se opõe à ficção. Ou você diria que A Chegada não existe? O real é, na verdade, oposto ao delírio, ao irreal, às não-coisas. Ou seja, àquilo que, via de regra, “não existe”.

E porque não existe? 

A Chegada

Um caminho curto para responder essa pergunta é dizer que essas coisas não são porque não podem ser alcançadas pela linguagem (o oposto também pode ser verdadeiro). É intangível descrever algo que não existe, mesmo que em pensamento. Como diria Ted Mosby, “é inefável”. Assim sendo, a opção dos aliens transmitirem a sua linguagem não tinha apenas a ver com a ampliação do conhecimento linguístico dos seres humanos, mas era a esperança de que nós pudéssemos expandir a nossa forma de ver a realidade. E já que o real acontece em algum momento histórico, precisamos partir daqui para nossa próxima avaliação.

Tempo

Por fim, é importante dizer que os caracteres liberados por Abbott e Costello tinham um motivo simbólico para serem circulares. Eles lembram muito um antigo símbolo grego chamado ouroboros, que nada mais é do que uma cobra mordendo a si própria. Talvez, essa seja a versão da Grécia antiga para as famigeradas tatuagens do oito deitado de hoje em dia, já que simbolizavam o infinito.

A Chegada

A ligação mais direta do tempo é com a realidade, pois ele marca o momento em que um determinado acontecimento se deu e, da mesma forma que o real acontece pela e através da linguagem, o fato sempre estará inserido no tempo, transformando e se transformando. Contudo, a forma como expressamos ações temporais se divide em três momentos básicos com algumas complicações: passado, presente e futuro. Em suma, mesmo que vários gatos sejam colocados dentro de caixas, no fim do dia, só podemos entender que algumas coisas acontecem, outras aconteceram, e há aquelas que ainda acontecerão. O infinito e o eterno são conceitos tão impossíveis de serem abstraídos pela nossa linguagem que automaticamente os associamos a Deus, os deuses e, por que não, extraterrestres.

E assim, como entramos na parte transcendental desse pensamento, é hora de encerrar esse ciclo.

Salvação

Por fim, A Chegada tem um final soteriológico. A protagonista finalmente é capaz de entender que não existe uma cronologia linear e isso possibilita que ela consiga salvar o mundo de sua eminente destruição. Isso, é claro, não acontece sem sacrifícios, já que sua exposição e do seu futuro marido aos alienígenas inevitavelmente causou o câncer e consequentemente a morte de sua filha. Assim, Villeneuve nos presenteou com uma heroína messiânica que perdeu a própria filha para salvar o planeta. A Chegada não é apenas um filme “mindblowing” desses que acabam tornando-se paisagem cinematográfica. A quantidade de significados contida em sua linguagem é profunda e merece uma pausa no tempo para ser analisada sobre diferentes perspectivas.

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Hippie com raiva.