A Casa Inventada (2017) – um ensaio sobre as nossas lembranças

“Pois nesse trabalho de viver não somos arquitetos, nem pedreiros: somos amadores.” – A Casa Inventada

 

Encontrando a preciosidade

Como de costume, assim como me dedico a apreciar um filme numa sessão de cinema, também dedico um momento numa livraria. Estava eu a procura de uma nova leitura, olhando para diversos gêneros, capas coloridas e autores desconhecidos, e um título me chamou atenção, organizado entre outros que não consigo recordar: “A Casa Inventada”.

Comecei a ler as primeiras páginas do curto livro, e já foi o suficiente para me levar a uma leitura diferente e nova, assim como eu procurava. Acabei comprando essa preciosidade, que aparentemente trazia uma metáfora sobre a vida.

O livro

Como disse, o livro é diferente. Escrito pela autora brasileira Lya Luft, “A Casa Inventada” tem o seu enredo claro desde as primeiras páginas, mas como a própria Luft diz “não me prenda a um alfinete de interpretação”. O que você precisa saber: o que acompanhamos em suas páginas é uma metáfora sobre vida na construção de uma casa, casa essa inventada. Mas o que uma casa tem a dizer sobre a vida? Quer espiar? Conhecer todos os cômodos? O que uma janela tem a dizer sobre a casa da vida?

Sete capítulos se fizeram maravilhosamente necessários para expressar isso. O que temos aqui não é um livro sobre interpretar personagens, se apegar a personagens e avaliar arcos. O que temos, é o mistério da vida. Como a própria Lya menciona “aqui não faço uma autobiografia, nem falo só em terceira pessoa”, nisso, apresenta em sua escrita um estilo único em sintonia com a auto ficção, poesia e prosa.

Para cada capítulo, é como se cada cômodo se apresentasse para o leitor, fazendo um convite a adentrar em seus mistérios, a conhecer essa casa tão familiar; de repente, parece que não mais imaginava as descrições belas e poéticas de Lya Luft, mas me sentia como passear na própria casa inventada. A porta de Espiar; O Espelho de Pandora; A Sala da Família; O Quarto das Crianças; O Porão das Aflições; O Pátio Cotidiano; o Jardim dos (a)Deuses. São esses os setes capítulos que acompanham o livro.

Não conhecia o trabalho de Lya, como já mencionei, mas fiquei deslumbrado por sua tamanha simplicidade e palavras, ao conduzir o leitor a visitar cada cômodo, cada momento, cada minuto, cada sensação, cada pensamento, cada lembrança dessa obscuridade, cruel e muitas vezes difícil, embaraçosa, imprevisível, fatigante; de decepções, de alegrias, de festejos, de inocência, de surpresas, de silêncio, de criar e indagar, que é o trabalho de viver. Tudo isso, Lya entrega nessa casa que inventamos, determinamos, organizamos, sonhamos, mas no final, não sabemos como vai ser.

a casa inventada

Entre o cambalear, o entristecer, o alcançar, o perder; nessa dança não somos observadores, somos os protagonistas. É demasiadamente incrível como Lya nos faz passear, relembrar e sentir – ora com Penélope, ora Pandora – o que vivemos. Não há como negar, a casa é como a vida. Muitos irão construir, muitos irão morar lá, ou ficar por um pouco de tempo. Para quem vai, para quem fica, o que nos resta são as nossas lembranças. Seja no derrubar, construir, reinventar, murmurar, querer entender, querer mudar, não ser o que somos. Lá no fundo, o que queremos é sentir a vida em toda a sua plenitude.

É um longo processo e tortuoso; a cada dia vamos aprendendo, questionando em nossas vidas. Se “A Casa Inventada” não foi além e Lya Luft não falou dos mistérios da vida com beleza e transparência, não sei o que faltou. Sou grato, Lya Luft.

 


E você que acaba de ler esse texto, conhece alguma das diversas obras de Lya Luft? Leu “A Casa Inventada”? Nos conte nos comentários ou no nosso grupo do  Telegram e Facebook!

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.