A Canção do Oceano (2014)

“Agora, se alguém dissesse que pode tirar sua dor, você permitira?”

CARTAZ CANÇÃO DO OCEANO

Título: A Canção do Oceano

(“Song of the Sea”)

Diretor: Tomm Moore

Ano: 2014

Pipocas: 9/10

Segundo filme dirigido e concebido por Tomm Moore, “A Canção do Oceano” repetiu o feito de seu antecessor “Uma Viagem ao Mundo das Fábulas”, sendo indicado ao Oscar de Melhor Animação, ao lado de pérolas como “O Conto da Princesa Kaguya”, “Como Treinar Seu Dragão 2” e… Bem, o vencedor “Operação Big Hero” também foi do mesmo ano.

Na trama de “A Canção do Oceano” conhecemos Ben e sua irmã Saoirse, que vivem com o melancólico pai, Conor. A razão de tal pesar é a ausência de Bronach, matriarca da família, que sumiu repentinamente na noite em que deu à luz sua filha Saoirse. Posteriormente, descobrimos que a pequena Saoirse é uma selkie, uma das criaturas encantadas das histórias que Ben escutava de sua mãe e, ao longo de um dia de Halloween, os irmãos passam por uma aventura para salvar sua família e seres mágicos aprisionados.

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É interessante como alguns filmes se manifestam como poesias visuais e esse certamente tem estrofes repletas de magia e beleza. Com uma animação 2D e a utilização da aquarela (dentre outras técnicas bem artesanais) no acabamento dos cenários, Moore e o diretor de arte Adrien Merigeau criaram uma atmosfera etérea e hipnotizante, perfeita para ambientar os seres mitológicos e as histórias com tom de conto de fadas, utilizadas para apresentar um pouco do folclore irlandês ao espectador.

Muitas das cenas do longa são formadas por quadros tão bem trabalhados e cheios de simbologia, que poderiam tranquilamente ilustrar a página de um livro ou estar pendurados em uma parede. Diversas informações e elementos são mostrados através de desenhos delicados e com detalhamento, fazendo com que, aos poucos, a descoberta de cada um deles se torne uma diversão a mais. Como acontece em um live action, mas com suas peculiaridades, a direção de arte em uma animação tem dentre suas diversas funções o papel de transmitir mais sobre os históricos, as personalidades e as sensações dos personagens – algo feito com maestria em “A Canção do Oceano”.

Nesse filme, fotos de lembranças de momentos em família espalhados pelos cenários demonstram o relacionamento entre os personagens, elementos religiosos lembram a importância do catolicismo na cultura irlandesa, desenhos feitos pelos personagens registram memórias, e até detalhes como pôsteres musicais de The Who, Rolling Stones e John Lennon revelam curiosidades. Tudo isso exposto com grande riqueza artística, em uma mescla de texturas que salta aos olhos. Há ainda a transição dos tons monocromáticos de dias nublados (que até são compatíveis com a geografia local, mas que também representam os tempos difíceis) para uma paleta de cores mais viva, que acompanha a transformação dos personagens.

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Vale ressaltar que esse é um filme de família, com pessoas que sofrem juntas, mas que se isolam, inicialmente. O desenvolvimento do enredo é relativamente simples e deixa o foco maior no relacionamento entre os personagens principais, trabalhando cuidadosamente os sentimentos de cada um deles. Aos poucos vemos o laço entre Ben e Saoirse ser reconstruído, e vivemos a experiência da jornada fantástica através da inocente perspectiva das crianças, enquanto isso transforma a vida de todos. Inclusive, fica a cargo de Ben a importante mensagem de que encarar as emoções de frente é sempre a melhor escolha.

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A bela trilha sonora é tão importante na trama que considerá-la como um personagem não seria exagero. Afinal, é através da faixa principal, a maravilhosa “Song of the Sea” (“Canção do Mar”, mas não aquela igualmente linda canção portuguesa), que Saoirse expressa sua bravura e leva esperança para todos. Além disso, as canções representam o laço afetivo entre Ben e sua mãe, como uma forma que ele encontra de trazê-la para perto de seu coração.

Lembrando o encantamento de obras do mestre Miyazaki e outras do Studio Ghibli, Moore insere elementos do folclore irlandês de uma forma fácil de serem assimilados universalmente e explora com muita doçura sentimentos que podem gerar identificação por parte do espectador. Ainda sobre representação folclórica, acabei lembrando da iniciativa da MultiRio, que criou a “Juro Que Vi”, uma série animada muito bem-feita sobre o folclore brasileiro, que me fez pensar sobre como a animação proporciona possibilidades infinitas para explorar esse tema.

“A Canção do Oceano” é um filme sem vilões ou heróis absolutos (excetuando o cachorro da família, esse sim um herói irretocável), com cenas de cortar o coração e outras vibrantes de alegria. Um espetáculo que transborda os limites da tela, envolvendo os pequeninos e transformando adultos em crianças grandes.

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