A Bruxa (2016)

-Não sei escrever meu nome.

-Eu guiarei a sua mão.

A-BRuxa

Título: A Bruxa (“The Witch)

Diretor: Robert Eggers

Ano: 2016

Pipocas: 10/10

É simples defender que o terror se perdeu com o tempo. Como gênero de fácil acesso, os filmes ruins que faturam muito gastando pouco se proliferaram, se tornando cada vez mais difícil garimpar filmes bons, normalmente fora do circuito comercial e longe do acesso do público. Ainda assim, de tempos em tempos, algo sai do padrão dentro do seu nicho. No caso do terror, às vezes sai um filme que consegue mais uma vez nos aterrorizar, não com sustos gratuitos, mas servindo como espelho e nos revelando o que há de mais medonho na nossa sociedade – e em nós.

“A Bruxa” é um desses filmes, e um dos melhores filmes de terror que já vi. Mais do que nunca – e como sempre -, recomendo: se este gênero te perturba, fique longe deste filme. Se não é o caso… Feche a porta depois de entrar.

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O longa conta a história de uma família puritana de colonizadores ingleses nos Estados Unidos que é expulsa de sua vila, sendo obrigada a tentar construir uma nova fazenda à beira de uma floresta. Os devotos pais, William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie, a Lysa Arryn de Game of Thrones) precisam lidar com as novas circunstâncias adversas, e a situação se complica quando o filho bebê do casal desaparece enquanto sob vigilância de sua filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy). A partir daí, o casal e os quatro filhos restantes começam a lutar com a ideia de que pode haver algo errado em seu novo lar.

“A Bruxa” lembra que terror bom é aquele que revela e nos obriga a reconhecer e enfrentar nossos medos, e não aqueles que nos fazem simplesmente saltar da cadeira. Para isso, a direção do estreante Robert Eggers, com seu próprio roteiro, funciona primorosamente. Com sua equipe, Eggers demonstra uma paixão por detalhes, e trabalha em todos os âmbitos para criar uma atmosfera inicialmente inóspita – e posteriormente aterradora. Cada elemento do filme aponta nessa direção: da fotografia ao vestuário e maquiagem, tudo agrega à narrativa do filme, além de dar credibilidade a ele.

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A trama também é profunda e consideravelmente imprevisível, visto que se recusa a nos entregar algo pronto – do início ao fim da projeção. Entramos no filme com dúvidas (por que William foi expulso da vila?), e saímos dele com questionamentos; “A Bruxa” não tem interesse em te explicar tudo. Assim como a vida, ela se propõe a ter uma história, não necessariamente com começo, meio e fim explícitos. Para que isso funcionasse e não ficasse muito caricato (vide “A Vila”, de 2004), as atuações precisavam ser competentes – e o são.

Cenas memoráveis se espalham pelo filme, e todas elas contam com quadros que realmente parecem pinturas. Ainda assim, sendo mais uma vez um ótimo filme de terror, as piores cenas de “A Bruxa” são aquelas que não vemos, e as explicações que não temos.

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Enquanto as pretensas bruxarias se espalham, todos começam a duvidar de todos e, quando testemunhamos a corrupção de inocentes, nossa própria corrupção é posta em xeque – junto à própria natureza do medo.

O personagem bíblico Jó, citado no filme, diz à certa altura de seu relato que “aquilo que temia me sobreveio”. Durante o filme, assistindo desejos destruindo vidas ou por serem deturpados ou por serem realizados, me ocorreu que o oposto do desejar nunca foi o rejeitar, mas o temer; o medo é só um querer que foi na direção oposta. A consequência disso é que ambos os sentimentos são muito perigosos: quando entregues às circunstâncias, o que mais tememos perder eventualmente pode nos ser tirado com a mesma força que o queríamos inicialmente.

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“A Bruxa” é um filme excepcional, e dou a nota que dei sem peso, considerando “A Bruxa” junto a clássicos do gênero como “O Iluminado” e “O Exorcista”. Sem sustos, mas com horror: é assim que “A Bruxa” enfeitiça a audiência por pouco mais de 1h30m de duração. Com seu caráter lúdico, como diz o seu subtítulo (“Um conto folclórico da Nova Inglaterra”) e diálogos envolventes, seus efeitos e reflexões se prolongam muito além de seu término.

Talvez por tempo demais.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.