Resenha | A Batalha do Apocalipse – da falta de interesse à empolgação da fantasia

No longínquo ano de 2010, um brilho azulado no meio da livraria me chamou a atenção. Uma anja guerreira posava de asas abertas em meio a destroços, encimada pelo céu nublado cujas nuvens permitiam que raios de luz esperançosos às trespassasem. “A Batalha do Apocalipse” não poderia ter uma capa mais adequada.

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“Das ruínas da Babilônia ao esplendor do império romano, das vastas planícies da China aos gelados castelos da Inglaterra medieval”, Eduardo Spohr cria um universo intrincado que mistura conceitos de diversas mitologias em um história brilhantemente coesa e empolgante.

“A Batalha do Apocalipse” conta a história de Ablon, um ex-general do exército angélico, que liderou a primeira insurgência contra o Arcanjo Miguel, o príncipe dos anjos e primogênito de Deus, e foi expurgado do reino celeste assim como seus companheiros de motim. Após anos fugindo dos assassinos enviados por Miguel para eliminar os renegados, Ablon é convidado por Lúcifer, o Arcanjo Negro, para se juntar às hostes demoníacas na derradeira batalha do Apocalipse.

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“Ablon”, por Alex Corsini – Arte dos Fãs, Nerdcast 276

Este épico dos anjos é um grande holofote para a literatura fantástica nacional. Grande parte dos clássicos publicados por escritores tupiniquins não são tão bem quistos público dos “jovens adultos”. Esse afastamento pode ter relação com o dever de lê-los no ensino médio – as chamadas “leituras obrigatórias” -, o que transforma a experiência literária em um martírio escolar. A linguagem rebuscada e “datada” presente nesses livros também é um ponto que diminui o interesse desse novo público, cuja maioria é provavelmente composta por leitores iniciantes – considerando a fraca cultura da leitura no Brasil.

“A Batalha do Apocalipse” se apresenta de um jeito diferente. Com uma linguagem formal, porém, descomplicada, Spohr usa as palavras para desenhar ambientes, personagens e batalhas épicas com maestria na mente do leitor. Os confrontos ao melhor estilo “Dragon Ball Z”, as armaduras reluzentes que lembram “Cavaleiros do Zodíaco” – anime do qual Spohr é declaradamente fã – e golpes com nomes memoráveis são alguns exemplos das referências “animescas” presentes nesta história.

Como em um filme, os méritos do livro são, em grande parte, um êxito logrado pela edição, pela organização das passagens. A distribuição das peças da história serve tanto para manter a tensão que se desenrola no “presente”, quanto para aprofundar as personagens e explicar o passado que embasa o conflito que nomeia o livro.

Os fatos são descritos em dois momentos: passado e presente. Se organizada em ordem cronológica a história perderia muito no mistério e no suspense. Um grande exemplo disso é um capítulo de quase 100 páginas mostrando a origem do relacionamento dos personagens principais (passagem ambientada na Babilônia antiga), enquanto nos acontecimentos do Brasil contemporâneo nada de especial acontece.

“A Batalha do Apocalipse” se apoia em pontos de virada inteligentemente distribuídos ao longo da trama. Muitos deles encabeçados não por conceitos estabelecidos durante a escrita, mas por preconceitos que trazemos conosco devido às raízes religiosas tão presentes na nossa sociedade. Como supracitado, a história mistura elementos de várias mitologias, como a chinesa, celta, grega e, principalmente, a cristã. Acredito que esse seja o ponto mais especial de “A Batalha do Apocalipse”.

Quando criança, criado em uma família católica, eu tentava organizar – nos meus pensamentos – as passagens cristãs de forma que acordassem com a ciência estudada na escola – o que podemos chamar de “Darwinismo raiz”. Porém, quanto mais empolgado com a História, mais complicado se tornava o meu intento. Como adequar a mitologia grega à cristã? O que acontecia com as almas dos povos americanos, que não tiveram contato com os ensinamentos judaico-cristãos até o Brasil ser descoberto? Algumas perguntas simples possuiam respostas complicadas. Perguntas complicadas por vezes tinham respostas simples… outras vezes, resposta nenhuma.

Aos meus 13 anos de idade, Eduardo Spohr revelou um horizonte que infelizmente não me manteve no caminho religioso mas me abriu uma lateralidade criativa tão empolgante, tão diferente de tudo o que eu consumia, que fez de “A Batalha do Apocalipse” um marco na minha singela e, até então, curta história. Foi quando percebi que a literatura fantástica pode ser mais que “histórias diferentes em mundos diferentes”. A fantasia é um mecanismo que gera infinitas possibilidades á realidade.

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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.