Análise | 13 Reasons Why – O peso do silêncio e o outro lado dos porquês

Quando lançada, em março do ano passado, a primeira temporada de “13 Reasons Why” foi bem recebida no primeiro final de semana, com as mesmas opiniões sendo reproduzidas em relação a série, até surgirem os comentários calorosos, resultando na polêmica sobre a série da Netflix. “Uma forma de romantizar o suicídio”, “um retrato em forma de vingança através do suicídio”, foram os tipos de pontuações que deram início a outra discussão para adaptação literária, o que depende de como cada um viu a série. Quer queira, quer não, o show foi renovado para mais um ano e aqui estamos nós para discutir sobre a segunda temporada de 13 Reasons Why – ainda que repleta de controvérsias propositais.

 

Título: Os Treze Porquês (“13 Reasons Why”)

Ano: 2017

Criador: Brian Yorkey

Estrelas: 3,5/5

Aviso: o texto contém spoilers sobre a segunda temporada de 13 Reasons Why, então, se ainda não terminou, não continue lendo.

A primeira temporada da série foi uma adaptação fiel ao livro de Jay Asher. Para contar a história, o programa foi focado em contar a história de Hannah Baker (Katherine Langford) exatamente como ela queria que fosse contada, porém, num formato televisivo e abordagem narrativa totalmente diferente da obra na qual o show foi baseado, gerando os questionamentos compreensíveis para os espectadores: “Como todos chegaram até Hannah?”, “Cada um simplesmente surgiu e a magoou no final?”. Felizmente, a pauta da segunda temporada foi exatamente tratar sobre o outro lado dos porquês – e o seus furos.

O outro lado dos porquês

Todo aquele que conferiu o primeiro ano da série, sabe que as coisas não terminaram bem para os personagens. Hannah contou a sua história, mas as consequências não poderiam ser evitadas. O caso do agressor sexual, Bryce Walker (Justin Prentice), suas vítimas – Hannah e Jessica Davis (Alisha Boe) – e o envolvimento de Justin Foley (Brandon Flynn); as especulações sobre o massacre na escola vindo de Tyler Down (Devin Druid) e suas armas, e a tentativa de suicídio de Alex Standall (Miles Heizer). Todas essas coisas indicavam que uma segunda temporada de 13 Reasons Why era necessária para continuar a contar o que começou.

Bryce Walker.

Tendo isso estabelecido, o novo ano abriu cinco meses depois que Hannah cometeu o suicídio, com alguns esperando sair impune das coisas pelas quais foram apontados nas fitas, outros se recuperando ou tentando e se esforçando para seguir em frente. Mas os Bakers, os pais de Hannah, decidiram rejeitar o acordo com a Liberty School e enfim processá-la, responsabilizando a escola pela a falta de cuidado, atenção, carinho, compromisso, e proteção para com os alunos e principalmente Hannah.

A narrativa seguiu de maneira inteligente o suficiente para manter um propósito e ritmo para os episódios. Narrativa, essa, focada em cada um dos envolvidos nas fitas que foram convidados a depor no processo contra a Liberty School, com o porém de que alguns estavam ali pela escola e outros pelos Bakers. Assim como os pais de Hannah esperavam por justiça, os espectadores foram colados nessa posição de torcer de que todos falassem a verdade perante a história que conhecíamos. O que não esperávamos, era sermos testados com o outro lado dos porquês.

Olivia, mãe de Hannah.

Hannah foi uma vítima – mas não uma vítima perfeita, porque isso não existe – e assim como qualquer pessoa, ela cometeu erros, tinha arrependimentos e desfrutou de outras coisas especiais, tentou ser forte e enfrentar a quem a magoou. Tudo isso, descobrimos através dos depoimentos dispostos a cobrir lacunas, as quais nos deixaram dúvidas.

Um exemplo que pode ser visto como controverso, além da temporada mostrar uma Hannah diferente da pessoa das fitas, é a história da moça com Zach Dempsey (Ross Butler). Lá no primeiro ano, descobrimos que ele foi o responsável por jogar uma carta importante na qual Hannah o questionava por ter retirado os bilhetes de elogios que ela recebia depois que confessou, anonimamente, a sua solidão numa atividade dinâmica em classe. Mas minutos depois, o vimos desmentir as palavras ditas por Hannah na fita sobre ele, mostrando para Clay que havia guardado o bilhete e em seguida dizendo que Hannah poderia ter mentido ou achado que o viu, isso porque cada história tem a sua versão.

Zach.

Conhecer mais de Hannah foi curioso e uma dessas coisas foi saber que ela um dia namorou com Zach e que eles se amavam, que até mesmo foi com quem ela perdeu a virgindade, mas no final foi rejeitada porque ele sentia vergonha de confessar o romance que vivia, baseado no estilo de amizade que tinha. Embora o sexto episódio da segunda temporada tenha sido um dos melhores, criou o questionamento de o porquê Hannah não ter relatado isso na fita. Talvez porque não querer expor que foi rejeitada, mas comparando o fato do plot desenvolvido para série com o que foi mostrado na temporada passada (com base no livro), aponta que o ocorrido foi tão grave quanto o lance do bilhete, mesmo que o romance tenha se desenrolado depois. Foi como Hannah disse, ela contou a sua história como queria que fosse ouvida, então apenas contou sobre como foi falar da sua solidão ignorada ou foi furo mesmo?

O bullying, o silêncio e os movimentos #MeToo e Time’s Up

Partindo além do outro lado dos porquês, a segunda temporada de 13 Reasons Why, seguiu firme e forte para continuar a debater as implicações em nosso meio. A começar pelo bullying, o terrível bullying. Novamente, de maneira honesta, do jeitinho que é, a série continuou a expor como a prática é opressora e influencia – ainda que muito tenha acontecido e muito tenha se falado sobre isso – nos comportamentos e amizades. Como é o caso de Zach e Bryce, por exemplo. Por mais que Zach tentasse não ser um bacaca, sendo gentil ao ajudar na recuperação de Alex, ouvia sempre de Bryce e dos companheiros atletas da escola piadas e zoações simplesmente por acharem que não é necessário ajudar um “otário”, um “perdedor” e que pessoas com eles não deveriam nem sequer andar com Alex, restando para Zach negar a própria pessoa que é e tentava mostrar.

Alex.

Há pouco tempo, foi difícil não acompanhar em sites na internet ou em noticiários a explosão de denúncias sobre os podres e agressores sexuais de Hollywood. A começar pelo reconhecido produtor Harvey Weinstein. Depois do dia cinco de outubro, a cada dia as denúncias só aumentavam. Mais vítimas se sentiram encorajadas a contar as suas histórias e vários outros nomes surgiram, como Bryan Singer, por exemplo. No meio disso, dois grandiosos movimentos se ascenderam: MeToo, criado em 2007 pela norte-americana Tanara Burke a fim de dar apoio a mulheres desfavorecidas devido a agressões e abusos, que acabou ganhando força através do Twitter, graças a atriz Alyssa Milano com a #MeToo para redirecionar a atenção para a gravidade das denúncias que cresciam; o segundo fato importante foi o Time’s Up, iniciado em janeiro deste ano, expondo ainda mais a desigualdade sofrida por mulheres na indústria.

Olhando para o movimento, é válido dizer o quanto a segunda temporada de 13 Reasons Why foi relevante ao focar na vítima de Bryce, Jessica. Trabalhar o silêncio e toda dificuldade que a personagem teve que lidar depois da descoberta de que sofreu estupro, foi delicado. A série correu risco e se aprofundou ao trazer outras vítimas e como lidam com o que sofreram, expondo também o comportamento padrão de homens que cometem a violência sexual – o que deixou impossível não lembrar das descrições das vítimas dos magnatas de Hollywood. Outro aspecto foi como o sistema lida com as denúncias, mesmo depois das vítimas quebrarem o silêncio.

Obviamente, como supracitado, a mãe de Hannah, as vítimas e o espectador gritavam e esperavam por justiça até o desfecho da temporada. Mas o que a segunda temporada de 13 Reasons Why pretendeu mostrar aqui – e continuará mostrando – é como a crueldade, a obstinação, a conformidade, o egoísmo, a injustiça e a hipocrisia se farão presentes, compartilhando danos mesmo que em todos os lados esteja a esperança de que as coisas poderão ser diferentes e que as pessoas deixem de ser tão incompreensíveis e desleixadas. O exemplo de Hannah foi uma experiência e ensinamento para muitos, mesmo a insensatez sendo o lema para outros.

segunda temporada de 13 Reasons Why
Jessica.

Assim, foi o segunda temporada de 13 Reasons Why, conseguindo manter o telespectador para o que estava sendo mostrado e até onde iria, dialogando sobre uma temática de urgência e atual. No entanto, uma coisa é certa: a história de Hannah Baker foi finalizada. Perante o seu desfecho perturbador, triste e chocante e com muitas pontas soltas, é de se esperar que a Netflix renove a série para mais uma temporada, visando continuar a falar sobre os personagens. O caminho poderia ter sido diferente e encerrado a trajetória dos treze porquês e as fotos polaroides, mas pelo visto, os realizadores veem a chance de ainda tratar sobre problemas sociais através das representações dos personagens e com muito polêmica.

*

Ultimas observações:

 

Polaroide 1: Foi realmente muito bom se envolver com os personagens de maneira diferente e ver como tudo foi direcionado, gerando um apelo e interação não conquistados na primeira temporada e, acima de tudo, vê-los unidos depois de tudo o que passaram e o que poderão fazer daqui em diante.

Polaroide 2: Que Hannah era importante para a segunda temporada de 13 Reasons Why, não é novidade. Se não fosse pelos flashbacks para complementar os depoimentos dos personagens, a volta dela aqui seria um saco, a julgar que se resumiu numa espécie de fantasma para Clay Jensey (Dylan Minnette). Falando nele, claramente era ideal também, mas foi totalmente irritante, acompanhar os ataques machistas porque não conseguia afastar a Hannah que conhecia da Hannah que não conhecia nos relatos ditos durante o processo contra a escola, pensando então que ela poderia ser perfeita como foi para ele, como ele queria que fosse, sem se envolver com outros. Ah, tá. Bacaba mesmo.

Polaroide 3: Foi interessante e engraçado a série usar das próprias atitudes – através da advogada de defesa contratada pela escola, Sonia Struhl (Allison Miller), que aliás foi um excelente complemento e deu um show de atuação –  controvérsas dos personagens na primeira temporada (como Clay revidando o bullying com o bullying) para desestabilizar os argumentos durante o processo.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.