Análise | 13 Reasons Why e os porquês dos personagens (Parte 1)

Não teve jeito. Por mais que diversas críticas apontando negativamente para a primeira temporada de “13 Reasons Why”, esse ano pudemos finalmente ver o resultado esperado (por alguns) da segunda temporada da série. Reclamando ou não, incomodado ou não com a temporada passada, mais polêmicas se fizeram presentes nesse novo ano. Além dos furos e das  fanfics, do peso narrativo e viradas desnecessárias para complementar a temporada, de longe, acompanhar os porquês dos personagens e o que tiveram com Hannah foi o que mais funcionou diante dos pequenos momentos relevantes para fazer essa empreitada valer a pena.

Aviso: contém descrições para maiores de 18 anos e spoilers sobre a segunda temporada de 13 Reasons Why nesse texto, então, se você ainda não conseguiu finalizar, não continue lendo.

 

Fui citado nas fitas: Tyler Down

“A gente sempre observa alguém, segue alguém e é seguido. Facebook, Twitter, Instagram. Fizeram-nos uma sociedade de stalkers, e nós gostamos disso.” – Hannah Baker

A temporada passada encerrou com várias pontas soltas e uma delas foi a promessa de que Olivia (Kate Walsh), mãe de Hannah (Katherine Langford), estaria disposta a processar a escola Liberty School pela negligência para com a filha e os demais alunos. A segunda temporada abriu cinco meses depois do suicídio da jovem, encaminhando o telespectador a se atualizar sobre o estado dos personagens.

Muitos foram intimidados, com o porém de que uns estavam testemunhado a chamado dos Bakers, pais de Hannah, e outros a chamado da escola, com isso, introduzindo o formato narrativo da temporada: os jovens mencionados nas fitas concedendo as suas versões do que tiveram com Hannah, somando aqui o uso dos flashbacks para complementar a história e a tentativa de tapar os furos – é, tentativa falha.

O primeiro a comparecer no tribunal e disposto a contar a verdade foi Tyler (Devin Druid). Na primeira temporada ficamos a par de que ele foi um stalker na vida de Hannah, tirando fotos íntimas da moça aos beijos com Courtney (Michele Selene Ang). Mais tarde, as fotos geraram um grande reboliço para Hannah, por que ela aparecia nitidamente nas imagens enquanto Courtney pôde negar que ali não era a sua pessoa beijando uma garota, deixando assim apenas Hannah sofrer com toda a perseguição, alvoroço e bullying por conta de duas garotas se beijando.

No episódio de abertura dessa temporada, Tyler contou como foi para ele conhecer Hannah. Ele viu na moça o talento em se sair tão bem nas fotos, assim a convidou para uma seção ao ar livre. Ainda que ela não tenha se sentido tão habilidosa para tal tarefa, assim o fez. Na ocasião em que ele tirou as fotos de Hannah e Courtney, acrescentou que, do lado de fora, através da janela do quarto de Hannah, a viu tirar fotos sensuais para enviar para algum garoto. Com isso, afirmou que ela não era tão inocente assim – mas isso lhe dava o direito de tirar fotos pessoais de outras pessoas?

Depois da repercussão das fotos, Tyler tentou se desculpar com Hannah, mas não foi bem recebido pela maneira que se achegou, dizendo que se ela quisesse tirar mais fotos, ele estaria disponível e que sentia muito pelo o que aconteceu. Essa foi a história de Tyler com Hannah, e ele encerrou a sua participação no depoimento aliviado por saber de que tudo que disse era verdade, assim como a sua responsabilidade por postar as fotos por pura vingança por Hannah não aceitar sair com ele, por saber que ele era o seu stalker noturno.

 

Fui citado nas fitas: Courtney Crimsen

O segundo episódio tratou de dar seguimento ao depoimento de Tyler, trazendo ninguém menos que Courtney. O capítulo em si foi ótimo, onde comprovava que o caminho traçado pela temporada parecia realmente bom e coerente.

Perante a advogada de defesa da escola, Sonya Struhl (Allison Miller), Courtney foi pressionada ao extremo sobre o que teve com Hannah. Quando as fotos repercutiram, Hannah sofreu com os boatos acerca da sua suposta orientação sexual. Tentou falar com Courtney para que resolvessem a situação juntas, porque não teve sentimento algum no beijo. Courtney teve a ideia e elas fizeram isso na tentativa de pregar uma peça no stalker que Hannah desconfiava que ficava tirando fotos suas.

Courtney resistiu e não se mostrou segura em se expor como a garota que beijou Hannah Baker, pela questão de que realmente sentia algo além da amizade que tinha com moça. Assim, iria expor sua orientação sexual de uma maneira que não estava preparada. A sua resistência deixou Hannah numa posição desfavorável em que a única coisa que pôde fazer foi deixar os dias passarem e sobreviver ao bullying e pressão.

Courtney e Hannah no 1×03.

No tribunal, vimos mais uma vez Hannah ser posta como a imagem contraditória da história através dos argumentos da advogada Sonya. “Na verdade, era Hannah que sentia algo por você, por isso deu mais de um beijo, não queria se expor e espalhou os boatos”. Nos flashbacks, vimos que Courtney se abriu sobre os seus sentimento para Hannah. Em lágrimas, depois de muito evitar falar sobre a sua orientação, decide dizer que não era Hannah a garota apaixonada, e sim ela, e finaliza assumindo os sentimentos que tinha pela garota.

O alívio de finalmente se assumir foi evidente, e acompanhar a sua busca por aceitação e apoio das pessoas que ama foi emocionante e importante para a personagem. No entanto, se no segundo episódio a sua participação foi gratificante, no decorrer da temporada se resumiu como uma coadjuvante para a história.

 

Fui citado nas fitas: Jessica

O terceiro episódio tratou sobre a verdadeira protagonista e importante personagem da temporada: Jessica (com a honrosa atuação de Alisha Boe). No final do primeiro ano da série, a personagem foi deixada com o grande abalo por sabermos que foi vítima de estupro. Como se não bastasse, ela descobre que o seu ex-namorado, Justin Foley (Bradon Flynn), permitiu que a situação acontecesse e que o seu estuprador era Bryce Walker (Justin Prentice), o melhor amigo do seu ex.

Hannah também foi vítima de Bryce. E uma das melhores coisas dessa temporada foi como focou de maneira abrangente para falar sobre vítimas de estupro. Se na primeira temporada tivemos as fitas para para prender o público, aqui, para lançar ao espectador a curiosidade sobre tais vítimas, vimos Clay Jensen (Dylan Minnette) receber anonimamente fotos polaroides das vítimas de Bryce.

Aos poucos, desde o primeiro episódio dessa temporada de “13 Reasons Why”, acompanhamos como foi para Jessica ter que lidar com o abuso sofrido. Os seus pais já sabiam, mas ela não contou sobre a identidade do seu agressor. No terceiro capítulo, focado em seu depoimento, foi explorada ainda mais a sua dificuldade e insegurança por ter que ver todos os dias seu agressor agir como se não tivesse feito nada, enquanto para ela era uma tortura ter que tirar a calça jeans sem lembrar de Bryce tirando a sua roupa; passar a dormir na cama dos pais por não se sentir confortável em sua própria cama ou constantemente lembrar do peso do corpo de Bryce em cima do seu.

 

Esse era o dilema que Jessica enfrentava enquanto não conseguia falar do que passou por medo do que o sistema a desmerecesse assim estava se sucedendo para Hannah. Além disso, Jessica sofria por ter que encarar o velho discurso de que a culpa é da vítima: com suas fotos da noite do baile penduradas no quadro branco da sala de aula, apontando o porquê acreditar numa “vagabunda bêbada”.

A importância do episódio se definiu por apresentar a forma que uma vítima é tratada e vista, assim como é difícil para ela conseguir falar do que sofreu. Jessica tentou falar de como estava sendo apontada, mas teve sua voz abafada, ainda que tentasse ser a favor de Hannah sem ter que expor o abuso sofrido. Então deixou o tribunal a par de que permitiu que suas inconstâncias a impedissem de enxergar como Hannah era uma boa amiga, do tipo que aconselha e adverte quando ver que seu amigo (a) está prestes a quebrar a cara.

No episódio final dessa temporada, tivemos uma cena grandiosa que mais uma vez confirmou o papel de falar sobre as mulheres que sofreram abusos, assédio ou qualquer outro tipo de violência, ao dar a voz para que todas as figuras femininas da série pudessem expressar essa denúncia.

 

Fui citado nas fitas: Marcus Cole

É hora de falar dos otários. Na primeira temporada, no sexto episódio, “13 Reasons Why” trouxe um importante arco narrativo que denunciava um típico exemplo de um indivíduo machista e o assédio sofrido por Hannah. Era Dia dos Namorados e, pelo que me lembro, uma espécie de algoritmo que apontava o candidato ou candidata perfeita para ser um par perfeito para os solteiros foi criado. A pessoa tinha em mãos uma folha rosa a qual detinha os nomes e contatos dessas pessoas que combinavam com ela, e a decisão de quem escolher era somente dela.

Marcus Cole (Steven Silver) parecia um cara correto, de bom caráter e muito bem-vindo para ser o pretendente de Hannah – assim ela também pensava. Assim, ele liga para ela marcando um encontro numa lanchonete para então aproveitar o resultado do algoritmo e então ver o que acontecia. O que Hannah não esperava era que ele a deixaria uma hora esperando e, quando então aparece, decide que seria legal tentar colocar as mãos na genitália da moça, enquanto queria provar para os seus amigos (que também estavam no estabelecimento de encontro) que podia tratar Hannah como se fosse seu troféu e decidir fazer o que quiser para mostrar como era fácil atingir esse objetivo.

Hannah, percebendo o que estava acontecendo, investe para impedir Marcus de colocar a sua mão. O rapaz, então, insistindo, recebe uma reação mais firme de Hannah, que gritou para deter Marcus. Constrangido, decide gritar com Hannah para se desvencilhar da situação.

Marcus foi babaca por vários motivos: por convidar Hannah para sair por achar que a garota novata era bonita merecia ter alguém como ele para sair e, por fim, que seria fácil para fazer o que bem quisesse e depois a descartar. As suas intenções não eram boas com a jovem, e o que deixou foi o desgosto de Hannah em querer se relacionar novamente com um garoto.

Mr. Cole, pai de Marcus.

No quarto episódio de “13 Reasons Why” voltamos para o personagem do jeito que era no primeiro ano: hipócrita, covarde e manipulador pensando que o que faz de ruim está favorecendo outra pessoa. Se antes ele não queria assumir o que fez, aqui muito menos. Ainda mais por sabermos o quanto os seus pais são religiosos e não aceitariam uma confissão comprometedora vinda dele, tampouco ele queria falar a verdade, porque o seu pai passava por um momento político no qual precisava de votos.

No tribunal, Marcus fez o que saber fazer de melhor: mentir, afirmando que Hannah simplesmente gritou com ele na lanchonete porque ele tentou ser gentil ao tentar pegar na mão dela. Depois disso, já que sua mentira não colou tão bem, decidiu dar mais uma informação falsa dizendo que Hannah o desprezou porque gostava de Bryce Walker.

No entanto, se vimos Marcus mentir sem um mínimo de remorso ou arrependimento pelo que fez, no curioso flashback pudemos ver Hannah fazendo algo a respeito contra seu assediador. Numa conversa, fazendo parecer que estava tudo bem, ela diz que toparia um outro encontro, até que ela o pressiona contra a parede apertando o seu “saco”, o fazendo saber de como ele a fez se sentir e o questionando como era a sensação de tentar assediar uma garota.

 

Fui citado nas fitas: Zach Dempsey

Desde o primeiro ano de “13 Reasons Why”, Zach (Ross Butler) foi um personagem fácil de gerar empatia com o público. Falhando na ordem cronológica, a versão do moço veio a ser contada dois episódios depois do episódio de Marcus, mas sabemos que na primeira temporada ele foi a pessoa que ofereceu ajuda a Hannah logo depois que foi assediada na lanchonete, depois a convidou para sair. Obviamente, foi rejeitado. Entendemos que a sua intenção foi boa, mas ele não pensou antes de chamar uma garota num pequeno intervalo de tempo em que foi assediada, sendo que também foi um dos amigos que serviu de plateia para atitude descarada de Marcus.

Movido pela vingança depois da rejeição (olha a desculpa), ele decidiu retirar os bilhetes que Hannah recebia depois que contou da sua solidão, anonimamente, numa atividade em classe. Hannah escreveu uma carta indagando o porquê dele ter feito isso… e por quê ele. O grito da jovem foi além da atitude de confrontá-lo, porque ele estava tirando algo que ela realmente precisava, depois de tudo o que passou. Na fita do personagem, Hannah lançou a informação de que o viu jogar a sua carta fora, em seguida ele desmente mostrando para Clay que guardou a carta em sua carteira e que realmente se importava com o que ela disse.

 

Foi a partir daí que percebemos que Zach também era uma pessoa solitária – além dos conflitos mal resolvidos com a mãe – capaz de compreender Hannah, mas que, a favor das amizades com indivíduos machistas que tinha, preferia se calar do que mostrar que era uma pessoa diferente e que ia contra a esse tipo de cultura de assediar mulheres, por isso tentou ser gentil depois do assédio de Marcus.

13 reasons why
Zach e Hannah no 2×06.

Aqui, na segunda temporada, foi explorado mais sobre esse lado empático do moço, se mostrando mais arrependido. E apesar do episódio ter sido belo, os roteiristas esqueceram da coerência: quiseram contar mais do personagem, mas esqueceram do que tinha sido estabelecido sobre ele e Hannah no primeiro ano de “13 Reasons Why”. Com isso, saber que ele foi o cara que teve um relacionamento sério e carinhoso com Hannah e que a rejeitou porque não queria que seus amigos soubessem dela, levanta a contradição do por quê Hannah não mencionou isso na fita correspondente a ele.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.