007 Contra Spectre (2015)

“-Tempus fugit.

-Desculpe, senhor Bond, eu não entendi.

-O tempo voa.

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Título: 007 Contra Spectre (“Spectre“)

Diretor: Sam Mendes

Ano: 2015

Pipocas: 8/10 

Os filmes de espionagem passaram por um divisor de águas em 2002 chamado “Identidade Bourne”. De lá para cá, todos os filmes com essa temática tiveram que obedecer a cartilha Bourne de ação, e Bond – James Bond – não escapou dessa sina. Quando em 2006 a franquia 007 passou por uma revitalização, James Bond e Jason Bourne e Jack Bauer já eram indistintos, e ver um era como ver todos. Essa tendência da espionagem mais realista permeou todos os filmes de 007 na figura de Daniel Craig – até aqui. Em “007 Contra Spectre”, vemos um James mais Bond e menos Bourne, enquanto a franquia tenta novamente se reinventar sem perder a majestade.

Em “Spectre”, Bond recebe uma mensagem póstuma de M para assassinar um homem. Agindo contra as ordens diretas do novo M (Ralph Fiennes, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado), o 007 envolve Moneypenny (Naomie Harris) e Q (Ben Whishaw) em sua investigação proibida. No caminho, Bond encontra Madeleine Swann (Léa Seydoux, “Azul é a Cor Mais Quente”), filha de uma de suas vítimas, a qual precisa proteger em troca de informação. Enquanto a trama fica mais complexa, Bond precisa ser James e desenterrar seu passado afim de combater uma organização secreta de alcance mundial.

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Pela própria temática, já dá para perceber que o filme se aproxima muito mais da megalomania dos 007 clássicos do que seus antecessores mais recentes. Um vilão caricato, embora já existisse na figura do Silva em “Skyfall” (2012), aqui é estabelecido de forma mais intensa – e provavelmente duradoura – na figura do Oberhauser vivido pelo magistral Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios” e “Django Livre”).

Ainda assim, nessa sede de crescer e voltar a ser o que era, o filme por vezes se perde em pretensões e tem dificuldades de acertar o ponto. Bons atores são sub-aproveitados, principalmente os vilões; o próprio Waltz parece contido e, por vezes, desconfortável, e Dave Bautista, o ótimo Drax de “Guardiões da Galáxia“, tem literalmente duas falas no filme inteiro, sendo um capanga dispensável para a trama – e nada marcante como o Jaws que ele tenta emular.

Os aliados, por outro lado, ganham importância. Vemos M, Q e Moneypenny indo à ação e ganhando arcos próprios e decisivos ao longo da exibição. Ben Whishaw e seu Q merecem um destaque; o personagem cria uma simpatia e funciona como um alívio cômico discreto, bem como a expressão “alívio” sugere, em vez de um saco de piadas. Mas ainda assim, nada disso te prepara para o estouro que é Léa Seydoux nesse filme.

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O charme, intensidade e convencimento de Seydoux em sua Madeleine me fizeram cogitar pela primeira vez que poderíamos ter uma 007 em um filme futuro. Com sua atuação afinada e bem dosada (salvo duas cenas específicas que claramente tiveram mão pesada do diretor Sam Mendes desequilibrando a cena), Seydoux consegue se destacar em meio à longa lista de femmes fatales da franquia. Finalmente temos uma Bond Girl que é mais do que uma Bond Girl.

O que me lembra que este filme é movido à contradições. O vilão comenta, no momento que lhe cabe, que o destino das Bond Girls normalmente é o mesmo: a morte, por vezes dolorosa. Na continuação da cena, o mesmo personagem realça como Madeleine seria diferente das demais – apontando que os tempos mudaram. Da mesma forma, um dos temas principais do filme é a justaposição da velha e da nova espionagem em um mundo de escutas, drones e internet – tema abordado recentemente no último Missão: Impossível, com a diferença de que aqui o filme não decide de que lado ele está. “A vigilância é um fato, C”, diz M em determinado momento, somente para ressaltar o quão insubstituível é o julgamento humano logo em seguida, e como uma licença para matar também é uma licença para não matar.

Essa contradição temática reverbera de maneira curiosamente metalinguística na própria narrativa do filme. O simbolismo da grande cena final se dar dentro do prédio antigo do MI6 que está sendo demolido de frente para a nova construção de vigilância é sutil como um hipopótamo bailarino. No fim, percebemos que a contradição é da franquia: ela parece, assim como Bond, estar em dúvida se caminha em direção aos tempos gloriosos de um Bond clássico ou se permanece tentando surfar a cansada onda de espionagem realista.

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Este fim que citei, inclusive, sendo outro problema de “Spectre”. O que deveria ser o ápice do filme é anticlimático, embora seja interessante a proposta de amarrar de vez todos os filmes que tiveram Daniel Craig como James Bond em uma única trama. Aqui, 007 volta a ser bem mais um filme de espionagem do que um filme de ação propriamente dito. Sendo este o último filme de Craig como Bond, é interessante pensar que seu agente secreto percorreu todo o seu arco – de novato, amador e impulsivo, para experiente e… bem, ainda impulsivo, embora bem mais requintado em seus gostos -, finalizando seu amadurecimento após enfrentar a Spectre. Se você procura aqui outro filme de ação desenfreado na linha dos que citei inicialmente, pode ser que “Spectre” lhe seja uma decepção.

O que fica após o fim do longa são todas essas dúvidas e dialética, as quais fazem com que, enquanto o cavaleiro da Rainha cavalga em direção a um nascer do sol, a plateia – e, principalmente, os fãs (como eu) – se perguntam qual caminho Bond – James Bond – tomará de agora em diante.

Obs.: embora genial no seu design e concepção, os créditos iniciais têm uma das músicas menos impactantes em um filme de 007 com “Writing’s on the Wall”, de Sam Smith. Ou talvez “Skyfall” seja tão boa que tudo o que vier agora vai ficar obscurecido.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.